Ninguém está a salvo
Uma das coisas que mais nos agradava fazer no Alentejo era passear junto ao lago ao nascer do dia. A luz é tão especial que, uma vez vista, passa a imprescindível. E naquele dia, como sempre, passeámos ao longo da berma do lag:, eu descalça com os pés dentro de água, o Filipe calçado, fora dela. Os pés urbanos não suportam os picos e as asperezas de paus e de pedras que se escondem nos lodos. Ri-me dele... Um corpo forte e robusto e uns pés de pequena princesa... 
 
Começávamos o jogo erótico muitas vezes assim. Ele riu e, sem aviso prévio, atirou-me para dentro de água. E foi daí que me tirou ao colou, beijando-me a boca, o pescoço e os ombros. Fechei os olhos, deixei-o deitar-me numa zona com ervas mais suaves, que me despisse e que me beijasse. Ouvia ao longe o piar das aves, os meus gemidos e os dele que entretanto se despiu também e entrou dentro de mim. 
 
Abracei-o com toda a força, com a força que o amor me dá sempre que o tenho em mim. E olho-o, acaricio-lhe a cara e sinto-me feliz e segura: sempre que o olho sei que cuidará de mim. Que viverá por mim e para mim. 
 
Um súbito ruído assustou-nos. Rápidos, puxámos as roupas e tapámo-nos. Um gato selvagem tinha saltado de uma árvore. 
- É melhor irmos para nossa casa.  
-Adoro quando falas da nossa casa. 
 
Corremos para o carro temendo as lendas que se associam a gatos. O perigo não residiu nele, mas na pessoa que nos estava a espiar detrás de uma árvore. E não levei muito tempo para o descobrir.