«Quase perdemos os nossos pais para o álcool»

Este exemplo é a prova de que nunca é tarde para vencer uma dependência

Oito irmãos que só hoje sabem o que é ter um pai e uma mãe. Quase perderam os pais para o álcool. A mãe deixou de beber há 12 anos. O pai largou o vício do álcool há 4.

A infância dos oito filhos de Augusta e Armando foi marcada por vários traumas e uma profunda tristeza, foram vítimas de negligência e pobreza extrema devido ao vício do álcool dos pais. A mãe era vítima de violência doméstica por parte do pai devido aos consumos de álcool e os filhos assistiam às discussões, aos insultos e às agressões dos progenitores.

A mãe bebia ao longo do dia de forma descontrolada, enquanto o pai, era um alcoólico funcional. Nunca faltou ao trabalho. Fazia a construção de campos de ténis. Era após a jornada de trabalho que o chefe de família ia beber para o café.

Caso não houvesse o grave problema da adição ao álcool do casal, Tiago, garante que os pais tinham condições financeiras para dar uma vida estável aos 8 filhos. “O ordenado que o meu pai recebia e o apoio da segurança social dava, caso o dinheiro fosse bem gerido, não precisávamos de passar necessidades. O dinheiro bem gerido dava perfeitamente para sustentar a nossa família”, garante Tiago. O problema é que o dinheiro era canalizado para a bebida.

Embora os filhos ficassem entregues à sua própria sorte, havia muita gente que solidarizava com a família, tanto vizinhos, familiares, como amigos, que conheciam a situação, tentavam ajudar. Alguns contribuíam com peças de roupas, outros traziam comida.

Tiago a certa altura assumiu o comando da casa, abandonou os estudos no 9º ano e começou a trabalhar. Era ele que impunha regras lá em casa, horários, organizava uma escala para fazerem as tarefas domésticas: cozinhar, limpar a casa, lavar a loiça.

Farto de lutar em vão, aos 18 anos Tiago decidiu abandonar a casa, afastou-se dos pais, embora nunca tenha deixado de saber dos irmãos.

Entretanto o pai adoeceu, teve uma tuberculose, ficou internado no Hospital. Há 12 anos, a mãe acabou por aceitar um tratamento para o alcoolismo. Esteve internada no Hospital em Coimbra durante 3 semanas. O Tiago decidiu regressar a casa para apoiar os irmãos e voltar a fazer a gestão da casa.

O regresso da matriarca a casa foi um misto de alegria e desconfiança. Só gradualmente, voltaram a ganhar confiança numa mãe diferente… uma mãe de verdade.

«Quando ela voltou do tratamento aos poucos fomos confiando nessa mudança. Finalmente conseguimos ter uma mãe e um pai. O meu pai deixou de beber há 4 anos, mas o caso dele era menos grave e ele conseguiu sozinho. Juntos conseguimos ter força para abandonar o vício. Hoje a minha mãe tem garrafas de vinho em casa, porque fazemos columbofilia e recebemos muitas bebidas, e ela nem mexe. Nunca mais tocou numa gota de álcool. Ninguém acreditava na recuperação da minha mãe, mas nós nunca desistimos. Hoje temos uma família nova!», conta Tiago.

Contra todas as expetativas, os oito filhos enveredaram por um bom caminho. Todos tiraram o seu curso profissional, todos têm o seu emprego. Nenhum se deixou levar por nenhum vício, nem se revoltou com a vida madrasta que tiveram.