«Saí de lá de colo vazio… E sem a minha boa nova nos braços!»

Texto escrito pela terapeuta Cristina Felizardo.

A perda de um bebé é a perda da boa nova. Dificilmente se consegue pôr por palavras o que significa uma perda tão profunda, tão íntima, tão pessoal. Pelo menos, para a mãe que a vive. Ainda assim, deixa-me tentar:
“Foi um parto demorado, de cerca de doze horas. Foi um parto difícil. De acordo com a enfermeira, este era um «parto verde», um nascimento que acontecia antes do tempo necessário à gestação terminar, por isso, a vida fluía em cada vaso sanguíneo, em cada terminação nervosa, em cada célula. Era necessário agir com cautela para que não se perdesse, também, a mãe. Os analgésicos eram usados com moderação e a anestesia seria apenas usada como último recurso. «Para que não se perdesse também a mãe!» Como? A mãe já estava perdida. Mas talvez fosse melhor assim. A alma estava a fraturar e a dor era alucinante, nunca tinha sentido nada assim. A sensação era como a de ser sugada por uma força invisível para o vazio. Ali tudo estava inerte, tudo era frio, tudo era escuro. Era um vácuo no espaço e no tempo, um lugar onde a vida se ausenta e o tempo paralisa. Foram doze horas, dizem eles. Para mim, o tempo foi sentido de forma diferente, congelou, e eu fiquei lá presa infinitamente, num estado de suspensão. Estava em segurança, em boas mãos, dizem eles. Não duvido, a prova disso é que estou cá hoje. Mas ali, no vazio, a solidão é sentida como o negrume que nos rodeia. Não há ninguém. Não há calor. Não há sons. Houve momentos em que acreditei que não voltaria mais. O sofrimento físico era a forma que eu tinha de saber onde estava a realidade. Era a dor que me mostrava o caminho para voltar à vida. O caminho termina com um som metálico que ficará gravado em mim para sempre, a ferro e fogo. O meu filho tinha acabado de nascer e o som metálico que escutei foi o som do seu corpo, sem vida, a bater num recipiente de metal. Este era o som que anunciava o inverso da boa nova. Eu tinha matado a boa nova. Naquele momento, eu era a assassina da verdade universal que simboliza a vida e, assim, morri um bocadinho. Paguei com a alma.”
Este é o relato de uma mamã de colo vazio. Mas podia ser o de tantas outras. Outras mães que sonharam com o dia em que iriam aconchegar o seu bebé nos braços, que prepararam com ternura o quartinho do novo membro da família, que organizaram a mala com a primeira roupinha, que frequentaram todas as aulas de preparação para o parto para saberem o que fazer quando o dia chegasse, mas, mais importante, para que não fizessem nada de errado ou que prejudicasse o seu bebé. Aquele bebé, filho de sua mãe, que começou a ser amado a partir do dia em que existiu no seu coração. Podia não ser visível aos olhos de mais ninguém, mas não era preciso. Já era gente no coração daquela mulher que o gerava. Por isso, quando este bebé morre antes de existir, é chorado de forma indizível pela única pessoa que o conseguia ver: a sua mãe.
É a dor maior. E, por o ser, fica para a vida.
A perda da maternidade essa, pode ser superada, com uma gravidez seguinte, que esclarece as dúvidas sobre o facto desta mulher poder gerar um filho. Mas a perda do filho, fica gravada na alma da sua mãe. A alma fraturada. Pode-se superar, sim, sem dúvida. Aprende-se a viver, claro, também é verdade. Mas com a alma para sempre fraturada.
É uma dor só. O ‘elefante branco’ que fica na sala.
Foi um amor apenas vivível aos olhos da sua mãe. O mundo lá fora não o conheceu. Aguardava com expetativa a boa nova. Afinal, os avós querem netos, as tias querem sobrinhos e o povo quer uma geração que os continue. Mas era apernas isso: uma expetativa. Uma ideia de afeto. Por isso, quando a boa nova não se concretiza, o que se perdeu foi uma ideia. Nada mais. Existe a preocupação com a mãe que lhe sobrevive. «Mas e a mãe, está bem? Ah ótimo. Ela ainda é nova. Ainda pode tentar outra vez.» E com uma simples frase, aquela mãe fica fechada num quarto sozinha com a sua dor. À mulher que existe dentro dela é exigido que saia desse quarto e que volte rapidamente, ao lugar de esposa, filha, profissional, amiga, etc. Mas a mãe não. Não é real aos olhos dos outros. Invisível, tal como aquele seu filho. E por isso, sempre que precisa de expulsar a dor que habita dentro dela, que a consome por dentro, tem de o fazer sozinha, naquele quarto, que os outros não querem ver.
A ti que és de colo vazio, digo-te: eles não o fazem por mal. Só te querem bem. Repara, são os teus. Cuidam de ti. Querem-te ajudar a curar, para que voltes a ser a mesma. Eles apenas te amam e não te querem perder à conta de uma ideia. Ajuda-os a ver o que só tu viste.
Aos outros que me leem: ela não vai voltar a ser a mesma. O corpo recuperou, mas a alma ficou danificada. E esta não pode ser curada por vós, por ninguém. O que podem fazer? Estar lá. Simplesmente estar lá. Sem opiniões, sem julgamento, sem conselhos. Disponíveis no vosso tempo, disponíveis no vosso coração. Disponíveis para conhecer o filho que foi amado sem nunca ter existido.
Afinal, o amor de mãe é para sempre…