28 ago 2019 11:53

Saiba tudo sobre a Síndrome de Deleção 22q11.2, mais conhecida como Síndrome diGeorge

Texto escrito por Marta Amorim, médica geneticista

A Síndrome de Deleção 22q11.2, previamente conhecida como Síndrome diGeorge ou Síndrome VeloCardioFacial, é a síndrome de microdelecção conhecida mais frequente, com uma prevalência de 1/3000-4000. Como o próprio nome indica, corresponde a uma deleção de parte do cromossoma 22, com cerca de 24 a 30 genes.

É uma doença que afeta vários sistemas e tem grande variabilidade clínica, que não se consegue explicar só pela ausência de determinados genes. Na ausência de parte de um cromossoma, além da ausência de alguns genes (esses moldes preciosos para as proteínas que nos constituem), também se destrói parte da arquitetura do cromossoma e é provável que alguma da clínica da síndrome seja consequência desta disrupção. Assim, mesmo em familiares com a mesma deleção (mesmo pontos de quebra) vimos diferentes apresentações da síndrome.

As características que mais frequentemente levantam suspeição nos recém-nascidos são as cardiopatias congénitas, o hipoparatiroidismo com hipocalcémia (com ou sem ausência do timo) e as fendas lábio-palatinas (que podem ter muitas outras etiologias, sindrômicas e não sindrômicas).

Na infância o quadro clínico mais habitual são o atraso global do desenvolvimento (com graus que podem ir do normal ao severo), a baixa estatura, os dismorfismos faciais, as infeções de repetição (como otites) e a insuficiência velofaríngea com ou sem fenda do palato (que dá origem a uma voz nasalada). A baixa estatura e o atraso de desenvolvimento severo afetam cerca de metade das crianças com a Síndrome.

Nos adultos, existe predisposição maior para doenças autoimunes (artrite reumatoide juvenil – 20 vezes mais que na população em geral, anemia hemolítica, doença de Graves, doença celíaca, Diabetes Mellitus tipo 1) e doenças psiquiátricas como a depressão, doença bipolar e mesmo esquizofrenia.

Mas na verdade, a síndrome de deleção 22q11.2 surpreende-nos todos os dias com outras apresentações: craniossinostose, polimicrogiria, coloboma, hipoplasia pulmonar, atrésia intestinal, hérnia diafragmática, aplasia cutis, polidactilia, são apenas alguns exemplos de quadros atípicos que já presenciei, dentro dos muitos descritos na literatura.

A Síndrome de Deleção 22q11.2 tem uma hereditariedade autossómica dominante, sendo que mais de 90% dos casos ocorrem de novo, isto é, de pais saudáveis, sem qualquer cromossomopatia. Nestes casos, o risco para futuros filhos destes casais é muito baixo (~2%), e não existem riscos para outros familiares ou sua descendência. Os filhos de portadores da síndrome, esses sim, terão um risco de 50% de herdarem a patologia.

O estudo de confirmação da doença pode ser feito por estudos de citogenética molecular: são estudos feitos a partir de uma amostra de sangue e que são solicitados em qualquer hospital. Para pessoas afetadas é também possível oferecer opções reprodutivas: diagnóstico pré-natal (em que se estuda através de amostras recolhidas por biópsia das vilosidades coriónicas, às 11-13 semanas, ou por amniocentese, às 16-19 semanas, a presença ou ausência desta região no feto) ou diagnóstico genético pré-implantação (recorrendo a uma reprodução médica assistida com teste do embrião in vitro).

Indivíduos com a síndrome devem ter um acompanhamento clínico especializado e multidisciplinar, que deve incluir também uma consulta de Genética Médica.

Texto escrito por Marta Amorim, médica geneticista.