04 out 2019 15:10

Perder o Amor Maior: como se sobrevive?

Texto escrito pela terapeuta Cristina Felizardo.

A muito custo, digo-te já. Imagina o que é ficares sem chão debaixo dos pés de um momento para o outro e caíres desamparada para um abismo de escuridão densa, durante tanto tempo, que começas a acreditar que ficaste suspensa algures num universo paralelo, onde não há calor humano para te manter quente. Imaginas? Ótimo. No entanto, apenas estarás a sentir uma ínfima parte daquilo que sente uma mãe que perde o seu filho. Não te consigo explicar melhor.

Não há palavras no mundo que possam descrever essa dor. É a Dor maior. É daquele tipo de dor que não parte apenas o coração, também fratura a alma. É a dor indizível, dizem elas. Elas, as mulheres de alma fraturada. Também elas foram, em tempos, como tu e eu: completas. Também elas abraçavam nos seus colos aquele Amor maior, filho delas, criança do mundo. Aquele amor que veio com a promessa de uma esperança no futuro, a promessa de lhes continuar. Aquele amor que era parte delas. Por isso, quando o Amor maior é perdido, quando o filho morre antes da sua mãe, é a vida a desafiar as leis da natureza. É contranatura, dizem. E é.

Naquele segundo do último suspiro do Amor maior, em que a mãe fica suspensa no abismo escuro, também ela acredita que o seu coração deu a última batida. Mas não. O dele parou. E o seu continuou a bater. Uma vez. Outra vez. Ritmado. Anunciando vida. Trazendo-a de volta daquele abismo, apenas para lhe devolver um mundo onde ela não sabe mais viver. Onde ela não quer mais viver. Ordena ao seu coração para parar de bater. Mas este não obedece, e por isso, ela sobrevive. Primeiro, batimento após batimento, depois, minuto após minuto, e, finalmente, dia após dia. E nem calculas quanto tempo cabe num dia, quando se caminha com a alma fraturada! Mas ela consegue. Primeiro, dormente nos seus sentidos. Ligada em modo de piloto automático. Talvez para não doer tanto. Se não sente não dói, certo? Mas a anestesia passa e a realidade começa a entrar.

Primeiro de mansinho, de tal modo que ela consegue negociar cada momento. Não venhas tão depressa vida, pede. Deixa-me fazer de conta mais um bocadinho. Ou então: Anda lá de uma vez por todas, vida! Pode ser que lá mais à frente já não doa. Mas a vida não pára e também não anda mais depressa. Continua a entrar dentro dela, a passo certo, dia após dia. Continua a impor-se como só a vida sabe fazer. Afinal esta é soberana. Continua a envolvê-la até não lhe restar mais para onde olhar a não ser para dentro de si. É ali que ela confronta a sua alma fraturada.

O coração regenerou e alma ficou assim. E assim ficará. Sobrevive-se? Sim! Escolhendo o Amor e respeitando a Dor. No centro do seu eu ela sabe que tudo se resume a uma escolha. A vida ela não escolhe, mas pode escolher como quer continuar a viver. E se ela escolher o Amor, por si, pelos outros, se ela continuar a usar o coração para cuidar, vai estar a transformar a dor em valor humano. Vai dar significado à fratura da alma. Vai ser, isso sim, uma Alma maior.