Joana nasceu com uma deficiência no braço direito e viveu anos de discriminação. Hoje, conta como o amor e a aceitação lhe devolveram a confiança.
«Já reparaste que ela tem um braço mais curto?»
Foi este tipo de comentário que Luís Silveira ouviu quando começou a namorar com Joana Raminhos da Silveira. Palavras duras, que revelam o preconceito que durante anos acompanhou a vida de Joana — e que nem o amor conseguiu travar de imediato.
“Com defeito de fabrico.” É assim que Joana se apresenta, hoje com ironia e coragem. Nasceu com uma deficiência no braço direito, que é mais curto, não tem cotovelo e tem apenas três dedos. Uma condição visível que, desde cedo, a tornou alvo de olhares, comentários e discriminação.
Os tempos de escola foram um verdadeiro pesadelo. Joana foi vítima de bullying durante anos, não só por parte dos colegas, mas também de professores. Durante os intervalos, escondia-se para evitar ser observada. Houve colegas que a agarravam para verem o braço e, na hora das refeições, chegavam a fazer fila para a ver comer. “Vivia escondida, com pânico que reparassem no meu braço”, recorda. Durante muito tempo, sofreu em silêncio. Só mais tarde contou tudo à mãe. “Quando contei à minha mãe, ela ficou destroçada.”
Nos primeiros anos, Joana não tinha consciência de que era uma criança diferente. Essa perceção foi surgindo com o tempo e deixou marcas profundas. No ensino secundário, tornou-se mais confiante e encontrou na indiferença uma forma de defesa. Ainda assim, na faculdade voltou a enfrentar o preconceito, chegando a ouvir de uma professora: “Devias ter pensado melhor antes de teres escolhido este curso”.
Foi também na escola que conheceu Luís, com quem está há 18 anos. Quando começaram a namorar, os comentários não tardaram a surgir. “Já reparaste que ela tem um braço mais curto?”, diziam-lhe. Para Luís, nunca houve dúvidas. A deficiência de Joana nunca foi um problema. O amor falou sempre mais alto.
Hoje, Joana e Luís já não vivem reféns do preconceito. Casaram-se em 2016 e celebram este ano 10 anos de casamento. São pais de uma menina, um caminho vivido com alguns receios.
Aos 34 anos, Joana está a realizar um doutoramento em Multimédia e Educação e é autora do livro “A Joana Joaninha Só Tem Uma Pintinha”, uma obra autobiográfica que aborda a diferença e o preconceito de forma sensível e pedagógica.
A história de Joana é uma história de resistência, amor e superação. Porque, apesar de tudo o que ouviu e viveu, recusou-se a ser definida pela deficiência — e mostrou que o verdadeiro problema nunca esteve no seu braço, mas no olhar de quem não soube ver além dele.