O caso recente de Nuno Markl recorda o que os especialistas repetem há anos: reconhecer rapidamente um AVC salva vidas. No caso de Filipa, a juventude impediu de o reconhecer, mas felizmente as sequelas não se fazem sentir.
A notícia do susto de saúde de Nuno Markl, na sequência de um AVC, voltou a colocar o tema na ordem do dia — sobretudo porque continua a ser uma das doenças cardiovasculares mais subestimadas. Filipa Pinto, hoje adulta, sabe bem o impacto que um acidente vascular cerebral pode ter numa vida. Tinha apenas 17 anos quando sofreu um AVC isquémico que quase lhe tirou a capacidade de andar.
Filipa era saudável, praticava exercício físico, não fumava, não bebia e tinha uma alimentação cuidada. Ainda assim, numa manhã aparentemente normal, sentiu uma dor de cabeça tão intensa que caiu no chão. A irmã, de apenas 10 anos, percebeu de imediato que algo estava errado: a boca de Filipa estava torta e ela não conseguia mexer-se.
Quando chegou ao hospital, ninguém acreditou no que estava a acontecer. “Perguntaram-me se tinha tomado drogas”, recorda. Mas o diagnóstico era mesmo um AVC — um dos mais jovens registados na altura em Portugal.
Os médicos só perceberam a gravidade do caso quando Filipa deixou de mexer o lado esquerdo do corpo. A recuperação foi lenta, mas marcante: “Fizeram uma festa quando movi o dedo do pé esquerdo”, lembra. Dez dias de internamento, um mês de fisioterapia intensiva e um percurso de superação que ainda hoje continua.
As sequelas ficaram: a mão fecha involuntariamente, o braço sobe sem controlo e os dedos do pé encolhem. Em 2021, Filipa descobriu ainda um buraco no coração, que pode ter estado na origem do AVC — embora nunca tenha sido possível excluir a hipótese de relação com a pílula.
Hoje tenta viver sem medo, mas admite que o pensamento do “e se?”.