Francisco admite estar em negação, depois de ter recebido um diagnóstico que nunca imaginou ouvir.
Francisco Vilhena tinha 43 anos quando a sua vida mudou de forma abrupta e irreversível. Sem qualquer sinal de alerta, sem dores persistentes ou sintomas evidentes, descobriu que tinha um cancro cerebral raro e altamente agressivo — um glioblastoma grau IV, um dos tumores com pior prognóstico na medicina oncológica tendo, segundo os médicos, 5 anos de vida.
Durante meses, Francisco acreditou que aquilo que sentia era consequência de uma depressão e de um burnout. O diagnóstico só chegou depois de um exame decisivo: um TAC revelou a verdade que ninguém esperava. A partir desse momento, o tempo deixou de ser um aliado.
Teve apenas sete dias para se preparar para uma cirurgia de altíssimo risco. Sete dias para assimilar a possibilidade de não voltar a acordar. «Preparei-me para a morte», confessou, recordando um dos períodos mais duros da sua vida. Pensou em despedir-se das pessoas mais próximas e enfrentou o medo “com o coração nas mãos”.
Os médicos foram claros e duros nas palavras. O prognóstico indicava que, mesmo sobrevivendo à cirurgia, Francisco poderia deixar de falar e de andar. Ainda assim, avançou.
Contra todas as probabilidades, acordou da operação. Sobreviveu. Mas não saiu ileso. Ficou com sequelas e iniciou um longo e exigente caminho de radioterapia e quimioterapia, tratamentos que marcaram profundamente o seu corpo e a sua rotina.
Pelo caminho, a doença obrigou-o a colocar a vida em pausa. Francisco teve de adiar o processo de adoção, que aguardava há cerca de 10 anos, e suspender projetos como a construção da casa. Pouco tempo antes da cirurgia, tinha-se casado com Pedro, numa fase em que a vida parecia finalmente alinhada.
Hoje, aos 44 anos, Francisco vive um dia de cada vez. Lida com fadiga constante, confusão mental e dores frequentes. Vive com a consciência de que a doença pode regressar a qualquer momento. «Vivo com uma bomba-relógio dentro de mim», admitiu, num testemunho marcado pela honestidade e lucidez.
Apesar de tudo, recusa romantizar a doença. «Não romantizo a luta. Escolhi viver», afirmou.
Os médicos alertam que a esperança média de vida em casos como o seu é curta. Ainda assim, Francisco escolhe estar presente, consciente e grato por cada dia. Não como um herói, mas como alguém que aprendeu que viver, por vezes, é simplesmente continuar — mesmo com medo.