Uma mulher com muitas histórias para contar e que inspirou Cristina Ferreira e Cláudio Ramos.
Ester Silva tinha tudo preparado para seguir medicina, mas acabou por se tornar numa das profissionais mais respeitadas da Polícia Judiciária. Mais de 30 anos depois, a inspetora-chefe olha para trás e percebe que a investigação criminal foi, afinal, o caminho que sempre a escolheu.
No «Dois às 10», Ester abriu o álbum das memórias — algumas duras, outras surpreendentes — e partilhou a história de uma carreira vivida no coração dos casos que abalaram Portugal. Entrou na PJ aos 22 anos e era a única mulher do seu curso, numa altura em que o universo da investigação criminal ainda era maioritariamente masculino. Nunca se intimidou. «Ninguém escolhe esta profissão se for medroso», recorda.
Deixar a medicina para entrar na Polícia Judiciária
O gosto pelos mistérios nasceu cedo, nos livros policiais que o pai lia e lhe passava para as mãos. Embora tenha frequentado três anos de Medicina, foi o desafio da investigação que acabou por falar mais alto. E, desde o primeiro dia, não mais parou.
Trabalhou em vários departamentos — desde furto de gado a tráfico de droga — até ser convidada para integrar o recém-criado Grupo da Direção Central de Combate ao Banditismo (DCCB), unidade responsável pela investigação das FP-25 de Abril. Um dos períodos mais intensos da sua vida profissional.
A cautela era regra. Ester contou que, durante esses anos, antes de entrar no carro verificava sempre se estava armadilhado. Medo nunca houve, mas prudência fazia parte do dia-a-dia.
Casos que marcaram Portugal
Ao longo de três décadas, Ester viu e ouviu o que o país só conheceu pelos noticiários. Recorda o rapto do recém-nascido na Maternidade Alfredo da Costa, resolvido em apenas sete horas, e investigações a grupos violentos, incluindo aquela em que ouviu um disparo enquanto estava numa escuta.
Mas há um caso que a marcou para sempre: o do “Gangue do Multibanco”, responsável por aterrorizar mulheres durante três anos. Ester relatou que foi através de um simples anel que conseguiu identificar o corpo de Ana Cristina, a única vítima mortal do grupo — um momento que nunca esqueceu e que mais tarde acabou por inspirar o livro que publicou recentemente.
Vida familiar e um amor nascido na profissão
Entre vigilâncias, noites sem dormir e operações em curso, Ester contou com o apoio da família. Foi na PJ que conheceu o marido, colega de curso e de investigações, com quem está casada há mais de 40 anos. A filha, hoje enfermeira, cresceu a vê-la equilibrar a exigência da profissão com o carinho da vida em casa.
Uma carreira sem arrependimentos
Ester retirou-se da Polícia Judiciária em 2012, mas garante que o coração continua na investigação. Não se arrepende de ter deixado a medicina. Pelo contrário: diz que percorreu exatamente o caminho que tinha de ser.