Viúva duas vezes, Quitéria aprendeu que o amor também é saber ficar de pé quando tudo se vai.
Há pessoas que são como as oliveiras: firmes, resistentes, feitas da mesma seiva que atravessa as estações sem se vergar. Quitéria Santos é uma dessas mulheres. Aos 80 anos, continua de pé, ativa e serena, mesmo depois de uma vida marcada pela dureza e pela perda. «As árvores morrem de pé», diz, resumindo numa frase simples a força que sempre a guiou.
Nasceu de uma relação fora do casamento. «Sou fruto de uma traição. A minha mãe teve-me com um homem casado», conta sem rancor, como quem já fez as pazes com o destino. Cresceu pobre, numa casa cheia de irmãos e responsabilidades, onde a infância acabou cedo. «Fiz a terceira classe, mas faltava muito à escola para tomar conta dos meus irmãos. Saí sem saber escrever o nome», recorda. Só mais tarde, já com 16 anos, aprendeu a ler e a escrever «com a ajuda de amigas».
Conheceu o marido na casa onde trabalhava. Foi um namoro à moda antiga, discreto e terno. «Os beijos eram poucos, mas bons. Agora não prestam para nada», diz, em risos, com aquele humor leve de quem aprendeu a rir do que a vida já não devolve. Casaram-se e viveram juntos 27 anos. «Vivi um namoro muito feliz. Tive a minha filha, que é o melhor que temos», diz, com orgulho. Mas a felicidade seria breve. O marido morreu aos 51 anos, vítima de cancro nos intestinos.
«Ele partiu e eu fiquei sozinha com a minha fortuna e com a minha filha», desabafa.
A filha, Maria João, nasceu com paralisia cerebral. Aos sete meses, os médicos confirmaram o diagnóstico. A partir daí, a vida de Quitéria passou a girar em torno dela. «Nunca me chamou de mãe, nunca andou, nunca comeu pela mão dela. Foi sempre uma infelicidade que tivemos as duas», confessa. Ainda assim, cuidou dela até aos 58 anos, com uma dedicação sem limites: «Fiz-lhe tudo e cá fiquei a viver sem ela». A filha viria a morrer vítima de cancro no sangue.
Depois da morte do marido, Quitéria voltou a amar. Viveu com outro homem, que também perdeu para o cancro, desta vez nos pulmões. «Já não tenho lágrimas para chorar, chorei muito durante estes anos todos», diz, com uma força que comove.
Hoje, Quitéria vive sozinha, acompanhada apenas pelo cão e o gato. Viúva há 35 anos, diz que já se habituou à solidão: «Sozinha estou bem. Se cair, tenho de me levantar, não tenho ninguém que me preocupe».
Passa os dias entre a renda, a costura e as visitas aos mais velhos do lar. Quando fala da vida, não o faz com amargura, mas com aceitação: «Sou feliz sem ter felicidade, porque, graças a Deus, até hoje tenho saúde».
Quitéria é, afinal, uma força da natureza — uma mulher que sobreviveu ao amor, à dor, à pobreza e à solidão, sem nunca perder a dignidade. Como as árvores antigas que enfrentam o vento e o tempo, ela continua firme, porque, como gosta de repetir, «as árvores morrem de pé».