R(t) e taxa de incidência: os indicadores que agora tomam conta da nossa vida

Covid-19 no Porto
Covid-19 no Porto

A diretora da Escola Nacional de Saúde Pública explicou à TVI24 que o comportamento do R(t) neste momento é "normal" e que se estabilizasse perto de 1, nesta fase, "seria muito bom"

Depois de dois meses de confinamento rigoroso, Portugal atravessa uma fase "delicada": tentar voltar ao novo normal, sem que isso se reflita num aumento significativo de novos casos, situação que poderia acionar o travão do desconfinamento.

E, nesta fase, há dois indicadores que nos acompanham no dia a dia: o índice de transmissibilidade, o 'famoso' R(t), indicador que nos diz quantas pessoas um determinado indivíduo pode infectar, dentro de um determinado período de tempo e a taxa de incidência, que mede o número de novos casos por 100 mil habitantes a 14 dias.

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O R(t) diz-nos que a percentagem de casos é muito mais rápida em pequenos números, em regiões onde há menos população, daí existirem zonas verdes em que o R(t) está acima de 1, quando as incidências estão muito baixas e termos zonas verdes acima de 120 casos por 100 mil habitantes, quando o R(t) é menor que 1, o que resulta da combinação dos dois parâmetros.

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São dois indicadores major para a decisão, que precisam de ser combinados. Se apenas um deles estiver mal, a situação é de preocupação, no sentido de uma maior vigilância e acompanhamento, mas pode não ser crítica. Por isso, na zona de 'passagem' existem cores, que apenas reforçam a necessidade de olhar para os dois em conjunto", explicou à TVI24 Carla Nunes, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública.

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É o caso, por exemplo, do município de Ribeira da Pena (um dos sete que registam mais de 240 casos por 100 mil habitantes nos últimos 15 dias) e que, com uma densidade populacional mais baixa, atravessa mais depressa a linha vermelha imposta pelo Governo, situação que já levou o presidente da Câmara a considerar a forma de cálculo "injusta".

Note-se que Ribeira da Pena tem 6.016 pessoas inscritas no Centro de Saúde e que com oito casos positivos passou para o "vermelho". Já Lisboa tem 85 casos por 100 mil habitantes e continua no verde, o mesmo acontece em Sintra (75), Vila Nova de Gaia (66), Porto (97) e Cascais (60), por exemplo.

A par de uma constante avaliação da situação epidemiológica, Carla Nunes considera que as medidas têm de ser o mais locais possíveis, "sabendo que as vizinhanças interessam e que as áreas geográficas são estruturas artificiais criadas por nós, mas que o vírus e a infeção não conhecem".

Assim, tem que ser um equilíbrio entre o mais focado possível, mas sabendo que existe circulação entre concelhos. Os indicadores epidemiológicos criam alertas, depois tem que se estudar e atuar localmente. Não existem receitas aqui. Tem que ser o conhecimento local e averiguar se é uma situação pontual, delimitada e controlada ou não", considerou.  

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A especialista adianta ainda que, neste momento, o comportamento do R(t) é considerado "normal".

Com valores baixos de incidência, e numa fase que sabemos que estamos 'apenas' a controlar a doença, não sendo possível que ela desapareça, é normal que o valor de R(t) cresça e depois estabilize perto do 1. Se ele estabilizar perto do 1, nesta fase da pandemia, seria muito bom".  

 

Outros parâmetros de avaliação

Mas não são só o R(t) e a taxa de incidência que 'tomam conta' das nossas vidas neste momento. Há inúmeros outros parâmetros de peso na hora de dar mais um passo à frente. Estes dois foram "apenas e bem" considerados os mais importantes, diz a diretora da ENSP.

São inúmeros: tendência (em crescimento ou não), internamentos em enfermaria, internamentos em cuidados intensivos, mortalidade, rastreio de contactos, testagem, variantes, link epidemiológico, entre outros. Uns podem ter maior relevância a nível local e outros mais a nacional, mas estes indicadores têm de ser todos tomados em conta na decisão. E ainda temos toda a gama de outros factores a considerar, já de natureza não epidemiológica, como os sociais ou os económicos."

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De acordo com os dados da Direção-Geral da Saúde, atualizados na quarta-feira - e na semana em que se iniciou a segunda fase do desconfinamento - o R(t) subiu para 1,01 a nível nacional e 1,02 em território continental.

No que respeita à incidência de novos casos de infeção com SARS-CoV-2, os dados revelam que se fixa nos 64,3 casos por 100.000 habitantes e nos 62,5 casos por 100.000 habitantes se for considerado apenas o continente.

Sobre a terceira fase do desconfinamento, prevista para dia 19 de abril, Carla Nunes diz que "temos de estar sempre disponíveis para avaliar e atuar".

A realidade vai ser assim mais um tempo. Até ao dia de hoje, penso que temos que estar alerta, mas é cedo para uma decisão."

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