Maria do Carmo Nogueira

Sofia Grilo

A Sara acha o quê? Que vamos ficar todos sentados a tomar chá com biscoitos enquanto ela reactiva essa bomba atómica sobre as nossas cabeças? Deve estar a achar que eu sou uma péssima mãe, mas não é nada disso. Ponha-se no meu lugar. O meu segundo marido, o Octávio, lutou a vida toda para chegar a uma posição importante na política. Acha que ele ia deitar tudo a perder porque uma irresponsável que nem sequer é filha dele desconhece o significado da palavra “preservativo”? Ele ia deixar-me, eu voltava para a minha vida de sacrifícios, mas desta vez com uma filha e uma neta para sustentar. Sejamos honestos: isto é uma receita para a infelicidade! Recuso-me a enfeitar o inferno. Não vou dizer que isso não me custou, mas fiz de tudo para que essa criança tivesse um bom lar. A minha vida é uma colecção de botas para descalçar. O Octávio, depois da morte do pai, preocupado e com pena da mãe ficar sozinha, teve a ideia peregrina de nos mudarmos para casa da minha sogra Milu. Ele garantiu que era temporário… Doce ilusão. Até hoje ainda lá estamos. Como é óbvio, a minha maneira de gerir uma casa não é exactamente a da minha sogra. Está aberta a época dos desentendimentos domésticos. Adiante. O meu queridíssimo enteado, o Afonso, gosta tanto de mim como um vegetariano gosta de bifes. Ele não perde uma oportunidade para me atirar à cara que eu roubei o lugar da mãe dele. Como se alguém tivesse poder para isso. Eu respiro fundo, conto até cinco mil, mas a minha paciência já chegou à beira do abismo. Por falar na ex, a Helena, não é que ela pede ao Octávio para voltar a viver na casa de onde eu nunca devia ter saído? Diz ela que é temporariamente, mas a esta altura do campeonato a palavra “temporário” ganhou um novo significado na minha vida. Ah, eu não vou ficar de braços cruzados. Eu sei muito bem o que eu quero e o que tenho de fazer.