Carolina Montenegro

Cristina Lago

Facto: se eu tivesse forças, já tinha largado as metanfetaminas. Já tentei, mas elas vencem sempre. Quando você cresce numa casa onde não falta dinheiro mas falta sanidade, ‘tá tudo explicado. A minha mãe, Marília, e o meu pai, Gilberto, têm uma relação muito peculiar. Eu prefiro nem comentar como era tóxico o ambiente lá em casa. A relação doentia deles resulta apenas para os dois, eles que expliquem a logística desse casamento. Atenção, eles não brigavam o tempo todo, as ofensas eram lançadas em mísseis munidos de sarcasmo e ironias. O resultado desse terrorismo psicológico sou eu. Quando o vício se tornou mais intenso, eu decidi vir para Portugal. E porquê? Pra não dar bandeira. Se meus pais descobrissem que destino eu estava dando ao dinheiro deles, a torneira ia fechar. Como minha tia Olívia e meu primo já estavam vivendo aqui, arranjei a desculpa que queria fazer um curso de fotografia em Lisboa. Se dependesse da minha tia, eu não existiria, muito menos a minha filha. Eu até tinha me prometido que, depois que ela nascesse, eu ia sair desta vida, ia ser uma boa mãe… Mas por uma dessas infelizes coincidências, quando a minha água rebentou, eu estava onde não devia. E quem é que me aparece? A Lúcia. No meio daquele desespero, sem eu me dar conta, ela sumiu com a minha filha. Mas esse drama não vai ficar por aqui. Quando eu estiver no hospital, entre a vida e a morte, vou contar tudo aos meus pais. O inevitável acontece e eu acabo por morrer. A partir desse momento, eles não vão sossegar enquanto não encontrarem a neta. É tudo o que lhes resta. A Lúcia que se prepare.