Conceição Cardoso

Maria Emília Correia

Tudo o que eu faço é pela minha filha, a Malvina. Ela odeia que a chame assim, mas eu não quero saber. Andei com ela na barriga nove meses, fui eu que a pari, portanto chamo-lhe o que eu quiser. O meu único erro foi ter-lhe posto também o Alexandra, porque agora toda a gente a trata por Xana. Trabalho para a dona Milu há mais de quarenta anos. Sou tratada com muito carinho e respeito, às vezes até me sinto da família. Sou muito grata por me terem oferecido uma casa para viver. Bom, mais à frente, a minha vida vai passar por uma reviravolta. Conhece aquele ditado “a corda parte sempre do lado mais fraco”? Pois é. Por causa do imbróglio da gravidez da Sara, o pai dela, filho da dona Milu, vai querer deixar-me com uma mão à frente e outra atrás. Ficar sem casa e trabalho… O que é que vai ser de mim com esta idade? Se eu não fosse uma pessoa séria, ameaçava contar tudo o que sei. E se me der na telha é isso que eu vou fazer. Sim, porque as empregadas sabem tudo sobre a vida dos patrões. Aqui entre nós, vou dar só um exemplo da quantidade de lixo que os tapetes dessa casa escondem. Está sentado? O falecido marido da dona Milu, que foi casado com ela mais de meio século, com aquela carinha de santo… tinha outra. A dona Milu nunca sonhou, coitada. O pior é que ela conhece a serigaita… volta e meia aparece aqui em casa, com cara de paisagem, como se nada fosse. Ai, Jesus… Não quero estar por perto quando ela descobrir.