Fernanda Sequeira Lobo

Alexandra Lencastre

A expectativa dos outros sobre mim não é e nunca será a coisa mais importante da minha vida. Não vou mudar para agradar a ninguém, até porque nunca ninguém mudou para me agradar. Eu só não deito a minha família inteira no divã do meu consultório porque, eticamente, uma psicóloga não pode atender a sua filha, o seu ex-marido, a gata do sogro… Deve ser por isso que eu fumo tanto. Eu sempre fiz tudo pela Lúcia. Enquanto o pai dela, o Pedro, era um eterno despreocupado, e o meu segundo marido, o Mário, era um irresponsável – sim, eu tenho atração por trastes. Algum problema? – eu trabalhei e estudei e cuidei da casa. A vida é curiosa. A Lúcia sempre reclamou que eu exigia demasiado dela. Se ela está à espera que eu lhe peça desculpa por lhe querer bem, pode esperar três encarnações. Até porque ela faz o mesmo com os filhos. Aliás, pior. Eu sim, tenho razões de sobra para detestar a minha filha. O meu casamento com o Mário acabou por culpa dela. E não me peça para dizer o que aconteceu porque é demasiado cedo para revelar algo tão sórdido. O pior é que essa tempestade de areia vai voltar. A última coisa de que eu precisava era ter o Mário novamente na minha vida. Não tem onde cair morto e sempre com aquela prepotência, aquela exuberância circense, cheio de carícias inconvenientes, com festinhas para aqui, um abraço para ali, aqueles beijos babados… Bem, eu aqui a falar, a falar, e ainda nem mencionei a minha outra filha, a Joana. Deve estar a pensar que eu não gosto dela. Pelo contrário. As pessoas conformadas são extremamente desinteressantes, é só isso.