Filipe Fonseca

Afonso Lagarto

Nova Iorque é a cidade que nunca dorme e eu sou o wanna be cineasta que perdeu o sono. Depois de meses a preparar a minha primeira curta, pouco antes de arrancar recebo a notícia Hiroshima. Está confuso? Eu explico. Deixei Lisboa e fui estudar cinema para a Big Apple. Infelizmente, durante os anos em que estive lá a estudar os meus pais faleceram, no espaço de um ano. O meu irmão Nuno, que sempre trabalhou com o meu pai, assumiu o negócio da família: uma papelaria, daquelas prestigiadas, a maior concorrente da Papelaria Fernandes. Como sabe, as grandes superfícies e os avanços tecnológicos arruinaram este tipo de comércio. Os que ainda sobrevivem estão à beira do abismo. Durante muitos anos, o meu pai e depois o meu irmão enviaram-me dinheiro para eu me manter em Nova Iorque. A fonte foi secando e agora não resta nem um pingo. Adeus Manhattan, adeus curta, adeus sonho. Percebeu agora? Quando regresso a Lisboa, primeiro vou viver com o meu irmão. Ele divide um apartamento com a Sara. Mas esse filme concorrente ao Óscar de melhor drama familiar sobre dois irmãos que se apaixonam pela mesma mulher não vai acabar bem. O meu irmão é um cobarde, preferiu ficar a vender cartolinas e lápis de cera. Agora a frustração não se cala. Por mim, vendíamos o negócio já e ficava cada um com a sua parte. Mas como sem a papelaria ele não é ninguém… Eu quero fazer os meus filmes, ele não a quer vender… Como deve imaginar, a nossa convivência vai ser tudo menos pacífica. Entre a Sara e o negócio, a nossa relação vai chegar a um ponto insuportável.