Gilberto Montenegro

Edwin Luisi

A Marília, minha mulher, sempre teve ciúmes da minha relação com a Carol. Dizia que eu mimava demais a nossa filha, fazia todas as vontades dela… Até pode ser verdade. Eu não vou negar que fui um pai demasiado permissivo, mas os negócios e as mulheres sempre ocuparam muito o meu tempo. Não tenho orgulho em dizer, mas amor também se compra. Eu queria que a minha filha gostasse de mim. Que pai não quer isso? Já a minha mulher, eu posso enterrá-la em diamantes que ela vai continuar me odiando. Explico: o meu fraco sempre foi o sexo oposto. Quando conheci a Marília e nos casámos, até pensei que o Casanova dentro de mim morresse. Mas não, ele só estava em coma e acordou pouco tempo depois. A monogamia é um tédio. Você se imagina comendo só arroz com feijão pro resto da vida? Vai negar uma lagosta suada, uma picanhazinha mal passada? Mas sabe como é: nós, homens, somos péssimos para esconder romances proibidos. Quando a Marília descobriu a minha primeira traição, eu lhe jurei que não ia voltar a acontecer. Depois da décima, já não dava para jurar nada. De certa forma, para uma mulher que já não sentia nada por mim, era um favor que eu lhe fazia não a procurar mais. Porém, a nossa relação vai mudar completamente depois da nossa filha morrer. É triste que seja preciso um acontecimento tão trágico para percebermos que afinal ainda sentimos algo um pelo outro. A morte da Carol vai me transformar num homem intolerante. Enquanto eu não encontrar minha neta, não vou sossegar, e não há mulher nenhuma que me desvie desse foco.