Lúcia Lobo

Dalila Carmo

Eu acho graça. Toda a gente me considera a ovelha negra da família, não percebo bem porquê. Sim, eu não posso ter filhos, mas isso não quer dizer que eu não possa ser mãe. Há tanta criança por aí abandonada, a precisar de uma família… Para o meu marido, o Pipo, ter uma família sempre foi importante. Acho que é porque ele nunca teve uma. A minha era disfuncional, por isso eu saí de casa aos dezoito anos e nunca mais quis saber daquela gente. Segundo a minha adorada mãe, eles bem que me tentaram encontrar, mas nada do que sai daquela boca é crível. A nossa relação nunca foi boa, mas depois do meu pai morrer e de entrar em cena o meu padrasto, o inferno de Dante virou um conto de fadas. Bom, mas voltando às crianças, que é o que interessa… Como eu e o Pipo não podíamos ter filhos, por razões que eu não posso dizer já que as cuscas das paredes têm ouvidos, quis o destino que eu levasse para casa um filho, depois outro e outro… Essas crianças não iam ter futuro, filhas de mães toxicodependentes, prostitutas… Antes de me censurar, reflita. Eu fui um anjo da guarda para esses bebés. Em vez de estarem nas ruas, abandonados, esquecidos, agora têm uma casa, estudam, têm amor… não lhes falta nada para terem uma vida normal e feliz. Não é isso que toda a gente quer? A minha vida seria perfeita se o passado ficasse enterrado, mas não, há sempre um infeliz com uma pá na mão pronto a cavar a vida dos outros. Haja paciência. Eu sou enfermeira, visto-me de branco, dedico a minha vida a ajudar os outros. Não é justo que uma pessoa faça o bem e tenha de pagar por isso. Sejam conscientes, por amor de Deus.