Malvina Alexandra Cardoso

Maria João Falcão

Eu sou a melhor amiga da Lúcia. Podia começar a falar sobre a minha vida, mas aposto que deve estar a achar o meu nome completamente estranho. A explicação é simples: como qualquer bom português, a minha mãe adora telenovelas. A dona Conceição não perdeu um único episódio da “Gabriela”. Já percebeu porque é que eu obrigo toda a gente a chamar-me Xana? Voltando à minha vida, que até dava uma telenovela, fui eu quem ajudou a Lúcia a conseguir o seu primeiro filho. Nem se atreva a julgar-me, porque eu fiz isso por uma boa causa. Eu explico: conheci a Lúcia no Alcântara-Mar. Ela trabalhava no bengaleiro, o Pipo era porteiro e eu e a Sara, neta da patroa da minha mãe, frequentávamos a discoteca. Como já sabe, a Sara e o Pipo terminaram e ele começou a andar com a Lúcia. Como a minha mãe trabalha lá na casa da avó da Sara, fiquei a saber que ela estava grávida. Tudo levava a crer que aquela criança só podia ser do Pipo… pelo menos foi o que eu e a Lúcia deduzimos na altura. Ela fez de tudo para que ele nunca soubesse dessa gravidez porque tinha medo de o perder. Os pais da Sara, por razões que serão explicadas mais tarde, decidiram esconder a gravidez da filha, que ainda por cima era menor, e arranjar uma família adotiva para o bebé o mais longe possível de Portugal. Como eu trabalhava na Embaixada da Suécia, não foi difícil encontrar um casal que levasse na bagagem a criança indesejada. No meio dessa confusão toda, a Lúcia convence-me de que o bebé devia ficar era com ela, pois assim ele ficaria com o pai. Eu recusei-me a fazer parte desse enredo surreal, só que a Lúcia tirou o Mestrado em manipulação… Ela garantiu-me que, mais tarde, iria contar toda a verdade ao Pipo. O que não aconteceu. Resultado: vai sobrar para mim.