Mário Veloso

Nuno Homem de Sá

Às vezes sou obrigado a fazer coisas pouco ortodoxas. Não que eu me orgulhe disso, mas um homem tem de levar a vida da melhor maneira possível. Como a honestidade não é uma característica das pessoas bem-sucedidas e política nunca foi o meu forte… cometo pequenos delitos. Quem nunca? Com a minha elegância – ok, um pouco desatualizada, mas a roupa fina ‘tá cara – a minha lábia e o meu charme não é difícil ganhar a confiança alheia. O mundo ‘tá cheio de otários disponíveis para serem enganados. Bom, como já sabe, eu fui o segundo marido da Fernanda. Tivemos um casamento como outro qualquer, que só chegou ao fim por culpa da filha dela, a Lúcia. Imagino que queira saber o que aconteceu, mas eu prefiro não tocar nesse assunto. É uma coisa que me tira do sério, faz com que eu me transforme numa pessoa descontrolada… e isso nunca acaba bem. Já que estou a falar na Lúcia e na sua habilidade em usar as pessoas, não é que ela me aparece à porta de casa e me convence a voltar para a Fernanda? A verdadeira razão dela me ter procurado eu só vou descobrir mais tarde. E qual foi? A família andava a vasculhar a vida dela por causa de alguma porcaria que ela fez. A Lúcia sabia que o meu regresso, depois destes anos todos, ia destabilizar tudo. E assim será. A si eu posso confessar: só aceitei voltar para Lisboa porque a Lúcia me disse que a família estava bem, tinham recebido uma herança dos avós dela… A Fernanda agora tem casa própria, um consultório, a minha filha Joana um estúdio de Yoga… Eu vou é facturar com os negócios da família. Quer eles queiram, quer não! Eu tenho esse direito. Afinal de contas, ainda sou casado com a Fernanda.