Maria de Lurdes Ferraz Nogueira

Lídia Franco

Uma coisa eu aprendi com a vida: ninguém conhece ninguém. Você pode conviver anos com uma pessoa e não tem noção de quem está ali na cama ao seu lado. Foi uma vida inteira com um marido que me deu tudo. Fui tratada com amor, afecto, amizade… O Virgílio sempre a surpreender-me com flores, jóias, viagens… Por isso é que eu nunca tive coragem de me desfazer das cinzas dele. Tal como da roupa. Cada camisa, cada sapato, cada gravata conta uma história que vivemos juntos. A família nunca aceitou isso, é sempre a mesma coisa. “Isso não lhe faz bem, por isso é que fica triste, desanimada”… Porque é que é tão difícil perceberem que tudo aquilo é o que me resta do Virgílio? Desfazer-me das cinzas significa que não resta mais nada, que acabou. A pressão é tanta que, um dia, eu arranjo coragem. Vou ao roupeiro recolher as coisas dele e encontro num bolso… um papel suspeito. Armada em Sherlock Holmes, descobri o que não queria. O desgraçado tinha outra. Percebeu agora porque é que a vida é um teatro? É claro que eu vou querer saber quem ela é. Se é velha, se é nova, se eu conheço… Pior, se levou alguma coisa que é minha por direito. A partir daí adeus luto! Vou sair de casa e viver com a minha neta Sara. E porquê? Ou era isso, ou demolia a casa. A Sara foi viver para um apartamento meu para evitar a constante avalanche de censuras familiares. Ela é a pessoa certa para me ajudar a soltar as amarras. Resta saber se ela vai ter energia para me acompanhar.