Filipe “Pipo” Trindade

Pêpê Rapazote

Tenho fama de ser violento. Deve ser porque eu trabalho como cobrador do fraque. É verdade que, às vezes, tenho de dar uns murros, partir um nariz… Se as pessoas fossem honestas e pagassem o que devem, eu não ia bater à porta delas. Cada um faz o que pode para ganhar a vida. Sou filho único. Os meus pais morreram num acidente de viação quando eu tinha seis anos. Fui criado pela minha avó, que vivia a contar cada cêntimo da reforma para nos sustentar. Preciso explicar mais ou já percebeu porque é que eu larguei a escola e fui trabalhar tão novo? Fiz de tudo, até porteiro no Alcântara-Mar eu fui. Foi lá que eu conheci a Sara… e a Lúcia. Às vezes eu penso: se a Sara não me tivesse enganado, quem sabe se as coisas entre nós não teriam resultado? Mas a vida dá muitas voltas. Eu amo a Lúcia, a gente tem muita coisa em comum. Eu sempre quis ter filhos, era o meu maior desejo, mas os exames disseram que eu não posso. Eu e a Lúcia até pensámos em adotar… mas por causa da porcaria duns murros que eu espetei nas trombas dum imbecil lá na porta do Alcântara, perdi o emprego e ainda fiquei com cadastro. Com este currículo, que instituição é que me ia deixar adotar uma criança? Nem um canil me ia deixar levar um cão. Quando ela me aparece em casa com um bebé, eu só não caí da cadeira porque já estava sentado. Tudo bem que o perigo nunca nos impediu de nada, mas porra… o que é que lhe passou pela cabeça? Primeiro eu fiquei sem reação, mas quando ela me começa a dizer que a mãe do bebé era uma prostituta que vivia na rua, que aquela criança ia passar de mão em mão enquanto a mãe atendia os clientes… Resultado: aceitei ficar com o bebé. Até porque a Lúcia tinha razão: ia ser melhor para ele. Daí para a frente, quem tem um tem dois e quem tem dois tem três. Mas a intuição é uma cena lixada. Eu sabia que isto dar merda. E ‘tava certo.