Sara Colaço Pimentel

Margarida Vila Nova

Eu sou uma pessoa transparente, digo as verdades, e isso só me causa problemas. Não é que eu seja agressiva, intolerante, muito pelo contrário, eu aceito as pessoas como elas são. O que eu não aceito é a falsa felicidade, a incapacidade de ver a realidade. Se elas fazem questão de se fazerem passar por outras e ignoram o elefante sentado na sala, não sou eu que estou errada. A minha transparência é injustamente rotulada de atitudes de menina rica e mimada. Esse é o problema de ter dinheiro e nunca ter feito nada. Eu tive a sorte de crescer numa família rica, porque é que eu não hei-de usufruir disso? Agora explique-me: porque eu sou rica e sincera tenho de ser crucificada? Como já deve ter percebido, a relação que tenho com a minha mãe, Maria do Carmo, o meu padrasto Octávio e o filho do primeiro casamento dele, o Afonso, é bastante turbulenta. Para ser mais exacta, a raiz de todos os males foi eu ter engravidado aos catorze anos. Como já foi dito, eu conheci o Pipo na discoteca Alcântara-Mar, onde eu conseguia entrar com um B.I. falso. Eu queria curtir, ele era giro, uma coisa leva a outra e acabámos na cama. Entrei em pânico, eu era uma miúda. Mas nem na minha imaginação mais selvagem eu poderia prever o que viria a seguir. E o que foi? O meu padrasto, que na altura era um político em ascensão, ia ocupar o cargo de Ministro da Educação. Tradução: a minha gravidez era um pedregulho no sapato. A solução foi esconder a gravidez e encontrar uma família que levasse a criança para bem longe. Por isso, quando a minha filha nasceu, eu preferi nem a ver. Nem sequer sei como é que ela se chama. Pior, nem sei que família a adoptou nem em que ponto do planeta ela está. É claro que você já sabe que ela está com a Lúcia, mas as peças desse puzzle vão chegar uma a uma e eu vou ter de montar o quebra-cabeças. O pior vai ser quando ele estiver completo.