Guerra, inflação, fenómenos naturais extremos, uma pandemia que perdura. O balanço geral deste ano é dececionante e, dizem, deixa antecipar um 2023 ainda "mais difícil".

Em tempos de profunda incerteza, muitos levam o olhar às estrelas e procuram respostas no plano místico. É a fé que move a Humanidade; a esperança da tão desejada bonança após meses - ou uma vida inteira - de infortúnios. A crença em entidades divinas é uma das formas mais antigas e enraizadas de explicar o desconhecido, mas cada vez mais coexiste (ou dá lugar) à crença num desígnio cósmico em que nada acontece por acaso e tudo, tudo é oportunidade para aprender uma lição. 

A arte da adivinhação equilibra a dose certa de livre-arbítrio e determinismo, o que explica a popularidade de pesquisas como "previsões para 2023" nas tendências de pesquisa recentes. Queremos deleitar-nos com o que poderá correr bem, tal como prevenir os perigos que poderão estar à espreita. Sentimo-nos um pouco mais preparados para enfrentar o futuro, agora já menos embaciado. Há quem não acredite e até troce, mas também quem defenda aquilo que considera ser uma das mais primitivas "ciências" da civilização humana. E depois há aqueles que procuram apenas uma fonte de esperança.

Posto isto, vamos a previsões?

Numerologia: o poderoso 7, envolto numa bruma de lilás

"A Matemática é o alfabeto com o qual Deus escreveu o Universo". A frase é frequentemente atribuída a Galileu Galelei (embora se trate de uma paráfrase) e serve de inspiração para a Numerologia, ramo esotérico que associa arquétipos a números. 


As previsões das ciências exatas podem ser pessimistas, mas a numerologia esboça um cenário bem mais risonho. Talvez mais obscura do que a astrologia, têm em comum o facto de serem áreas de estudo do esoterismo que procuram decifrar significados ocultos nos elementos do quotidiano. Se a astrologia constrói a ponte entre os astros e a vida humana, a numerologia parte da matemática para compreender a forma como as supostas vibrações dos números interagem com a nossa existência.

A numerologia é tão individual (já deu por si a indagar o significado daqueles números que parecem persegui-lo?) como coletiva. O conceito de “número do ano” insere-se na segunda categoria, ao influenciar toda a comunidade com a “vibração” de um dígito específico. É uma espécie de horóscopo que descreve em linhas gerais um ano inteiro, em vez de apenas um signo ou um curto espaço de tempo.

Calcular o número representativo de um ano é elementar: basta somar todos os algarismos que o constituem. 2022 seria, portanto, um ano regido pelo número 6 e por uma abundância de sucesso, amor e equilíbrio. Ou, pelo menos, era o que garantia em janeiro a eterna romântica Cosmopolitan - se as previsões vieram ou não a concretizar-se, dependerá de alguma subjetividade e sorte pessoal.

2+0+2+3 = 7. Depois das emoções fortes de 2022, chega a altura de refletir e apurar a visão interior. São sete os continentes e os oceanos; sete as cores do arco-íris; sete os pecados mortais e as virtudes celestiais. E é o sete, número de elevação espiritual, que regerá 2023 com a sua vibração harmoniosa. Evoca mistério, mas também sede de conhecimento - tanto do mundo exterior, como do próprio "eu". É um regresso à intuição e à conexão com o mundo espiritual, depois de um ano marcado por preocupações materiais.

Ficam então os conselhos da numerologia: traçar objetivos e investir no desenvolvimento pessoal, optar pela sensibilidade em vez de uma visão mais prática e superficial do mundo, exercitar a veia filantrópica e ajudar o próximo sempre que possível. 

Entretanto, o Pantone Color Institute já anunciou a tonalidade que vai marcar 2023: Viva Magenta. É "uma tonalidade inconvencional para um ano inconvencional", que parte do vermelho e acrescenta pinceladas de dinamismo e irreverência, como um "punho cerrado numa luva de veludo", escreveu no Instagram a marca responsável pela criação do maior sistema de cores no mundo.

A cromoterapia aceita o magenta, mas acrescenta-lhe um pouco mais de azul. Sendo o sete o número da espiritualidade, não poderia deixar de ser representado por um tom igualmente místico e associado ao divino - o lilás. Não é coincidência que esta seja também a cor do chakra coronário, o primeiro de sete, que se localiza no topo da cabeça e une o corpo ao plano metafísico. 

Astrologia ocidental: um ano que só começa mesmo a 18 de janeiro (mas que valerá a pena)

A astrologia é mais do que o signo solar, de Carneiro a Peixes. "É uma área de estudo muito interessante, mas também extremamente vasta e complexa", diz a astróloga Sandra Costa.


Falar sobre astrologia nunca foi tão normalizado. Já não é coisa de hippies ou sequer de comunidades esotéricas: basta abrir o Instagram ou o Twitter para nos depararmos com uma panóplia de publicações a culpabilizar o Mercúrio Retrógrado por todos e quaisquer problemas.

O evento adquire o nome devido a uma ilusão de ótica que faz com o planeta pareça (só pareça) mover-se em movimento contrário ao seu sentido natural. É uma ocorrência que se verifica em mais astros, embora em Mercúrio - o planeta da comunicação e das tecnologias - aconteça trimestralmente. 

Se acredita no impacto deste fenómeno, prepare-se: a passagem de ano vai celebrar-se em pleno Mercúrio Retrógrado. Os efeitos começaram a fazer-se sentir esta quinta-feira, dia 29 de dezembro, e vão prolongar-se até ao dia 18 de janeiro. Mas não vêm isolados. Há outro planeta importante em aparente retrocesso, desde o passado 30 de outubro até 12 de janeiro: Marte, o astro da ação e da agressividade. 

A astróloga e psicoterapeuta Sandra Costa indica que estes dois fenómenos concomitantes obrigam a um começo da máxima "ano novo, vida nova" mais comedido do que o habitual. Em vez de partirmos de imediato à concretização das resoluções, o mais aconselhável é aguardar e fazer o planeamento de forma rigorosa, com mais ênfase na reflexão e não tanto na ação. "Se vamos começar a fazer algo, o melhor é esperar pelo dia 18 de janeiro", quando estas provações astrológicas tiverem sido superadas. Vai valer a pena: apesar deste começo atribulado, o ano de 2023 prevê-se mais sereno e estável do que o anterior.

Debruçando-nos agora sobre os chamados "planetas sociais" - ou seja, planetas que se ocupam de questões relacionadas com a famílias, as leis, e as normas da sociedade - temos Saturno a entrar no signo de Peixes, onde ficará até 2025. "É apropriado estarmos no ano 7, porque Peixes é o signo mais espiritual do zodíaco”, nota Sandra Costa. Tal como a numerologia, também a astrologia prevê um ano de amadurecimento espiritual e regulação emocional, mas tendo sempre em atenção o "lado sombra" desta elevação espiritual: ilusões, caos e emoções intensas. 

O ano começa com uma lufada de boa sorte para os nativos de Carneiro, agraciados com o planeta Júpiter. Em maio, será a vez de Touro receber a influência do planeta do otimismo e da filosofia, mas todos sentiremos os efeitos: prosperidade, valorização pessoal e uma melhoria progressiva da economia. 

Mais um destaque, desta vez para Plutão. Este é um astro transpessoal que, tal como o nome indica, transcende o pessoal e emana uma energia transformadora a nível do coletivo. Transformações estruturais implicam um período de tempo mais prolongado - e é por isso que Plutão (já só chamado de "planeta" no esoterismo, visto que foi despromovido a "planeta anão" pela astronomia) pode demorar mais de 30 anos a dar uma volta inteira a uma carta astrológica. Ao transitar para o visionário signo de Aquário no dia 27 de março, deixa adivinhar aquilo que serão os próximos 20 anos. Valores reforçados de humanidade e igualdade, bem como revoluções tecnológicas e a provável expansão da Inteligência Artificial. 

A astróloga realça que, para previsões mais concretas, é essencial ler e interpretar o mapa astral de cada pessoa, composto por muito mais aspetos individualizadores do que apenas o signo solar. "De qualquer modo, todos os movimentos que vamos ter vão abarcar o coletivo. A espiritualidade vai ser muito realçada nos próximos dois anos, e vamos todos beber dessa energia". 

Astrologia chinesa: um coelho de água que convida a calma 

O Ano Novo Chinês é indissociável à cor vermelha, às inscrições da palavra 福 (sorte) e às tangerinas. Porquê os citrinos? A palavra "tangerina" é foneticamente semelhante a "prosperidade". 

Provavelmente terá em casa um calendário astrológico chinês, daqueles que são distribuídos em lojas e restaurantes no fim do ano. Também já deve ter calculado o seu próprio signo através da fórmula básica neles apresentada: um ano é regido por um único signo representado por um animal, numa sequência que se repete a cada 12 anos. Ou seja: se nasceu em 1987, 1999 ou 2011, provavelmente pertencerá ao signo coelho. 

Na verdade, esta é apenas uma versão simplificada do imaginário astrológico chinês. O Ano Novo Lunar (ou Ano Novo Chinês) segue o calendário lunar e não o gregoriano, pelo que o começo de um novo ciclo é celebrado de acordo com as fases da Lua - e não no dia 1 de janeiro, como na interpretação ocidental. O novo ano é sempre celebrado na segunda Lua Nova depois do solstício de Inverno, entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro. Portanto, atenção: se nasceu entre estas datas, há uma forte probabilidade de o seu signo chinês não ser aquele que sempre julgou.

O próximo Ano Novo Lunar assinala-se a 22 de janeiro de 2023, um domingo, e é regido pelo coelho de água. Este é outro aspeto comumente ignorado na interpretação da astrologia chinesa: todos os animais têm diferentes elementos a si associados, desde os mais familiares (fogo, terra e água) a outros que podem parecer mais originais (metal e madeira). 

Para compreender todos estes símbolos e significados, é preciso conhecer a lenda que os inspirou. Os protagonistas são Buda ou o Imperador de Jade, na versão mais famosa, mas o resto da história é igual. O líder organizou um banquete e convidou todos os animais à face da Terra, mas só compareceram doze. Como retribuição, atribuiu um ano a cada animal, em ordem da hora de chegada ao local do compromisso: rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco. 

Ora, o coelho, animal mais tranquilo do que o feroz tigre, traz aquilo que faltou em 2022: paciência, paz e sorte. É também perspicaz, sempre alerta e de focinho agitado pronto a detetar imprevistos (e a combatê-los agilmente). Aliadas estas qualidades ao elemento da água, de ondas calmas de sensibilidade e intuição, o Ano do Coelho promete ser um bem merecido período de descanso e recuperação emocional. 

Mas a importância do coelho na cultura chinesa vai muito além da astrologia. Basta olhar para o céu: segundo uma fábula ancestral chinesa, as crateras e sombras da Lua delineiam a figura do pequeno roedor. É aí que reside o Coelho de Jade, eterno companheiro da deusa Ch'ang-O e símbolo de altruísmo, pureza e crescimento espiritual - mais uma vez, resgatando estas palavras-chave para 2023. 

2023, o ano de entrar no carro e conduzir com destino certo

"Os Enamorados" de 2022 e "o Carro" de 2023.

Como já foi referido, as previsões acima não têm em conta experiências individuais e abarcam os 8 mil milhões de habitantes do planeta Terra. E se restringíssemos esta leitura a um público mais específico… como, por exemplo, os leitores deste artigo? 

Sarah Lins é taróloga, astróloga e orientadora espiritual, com mais de 20 anos de experiência na área do esoterismo e terapias holísticas. Contactada pela CNN Portugal, aceitou o desafio de tirar e interpretar uma carta de tarot especificamente para este grupo.

Então, como será o ano de 2023 para os leitores da CNN Portugal? 

Como é impossível adivinhar o futuro sem antes compreender o passado, Sarah tira uma primeira carta relativa ao ano de 2022 que agora chega ao fim. Os Enamorados, carta que parece apropriada para um ano "com muitas emoções ao rubro". 

Depois de dois anos de medidas restritivas contra a covid-19, “fomos convidados a sentir de perto o amor ao próximo e a comunicação entre sociedades”. No entanto, com o eclodir da guerra na Europa e uma crescente instabilidade política, a nível nacional e internacional, “muito ficou por resolver". 

Finalmente, a carta relativa a 2023: o Carro. O nome pode sugerir um cenário menos romântico do que a carta anterior, mas não é bem assim. O planeta que acompanha o Carro é Júpiter, astro em grande destaque nas previsões astrológicas deste ano, e com ele "chegam as oportunidades, o convite certo para agir" e a vontade de desbravar novos trilhos. É um ano de viagens, repleto de “convites para que se desloque”, ou não fosse Júpiter o planeta da expansão e da liberdade. "A carta indica que é necessário começar o caminho, mas para isso é necessário saber qual é o destino”, explica Sarah Lins. 

O grande objetivo de 2023 é, portanto, proceder a uma reflexão interna e conseguir traçar objetivos com clareza. É o ano de escrever listas e anotar todas as questões pendentes, para depois as riscar definitivamente. Pode parecer tentador lidar com todos os problemas ao mesmo tempo, mas a taróloga aconselha que o melhor é definir prioridades ("um ato de auto-amor”) e "não querer ir a todo o lado ao mesmo tempo". Resumidamente, a mensagem do Carro é esta: “recupere as rédeas da sua vida, como o passageiro que entra no carro e sabe de onde partiu e para onde vai".

Num prisma internacional, continuarão as "grandes disputas" que têm marcado os tempos recentes, embora este ano favoreça "a comunicação entre os povos". Neste diálogo, sairão vitoriosos "os mais experientes e os que souberem comunicar de forma inteligente, sem recurso ao Ego". 

O Carro significa movimento, e o mesmo se aplica às emoções. É altura de sabermos "o que ainda pode caminhar connosco" e aquilo a que temos de nos desapegar. Como já adivinhavam o místico 7, as influências piscianas e o coelho de água, também esta carta aponta para um ano de "muita complexidade em termos emocionais". De igual forma, o plano profissional também é pautado por algumas palavras emocionalmente pesadas: "obrigação, meta, pressão". 

Se o tema da saúde mental tem vindo a ser desestigmatizado ao longo dos últimos anos, em 2023 vamos “finalmente” passar a valorizá-lo como uma “responsabilidade” essencial à nossa "existência em evolução". O recurso a terapias menos convencionais, como a espiritualidade, será uma ferramenta fundamental neste sentido. 

Nesta busca interna por respostas, é preciso “aprender a respirar e a meditar” perante as dificuldades que teimam em surgir. Esta tranquilidade pode - e deve - ser procurada na Natureza. Num mundo cada vez mais digital, a conexão com a Terra é como um “antibiótico” para as más notícias, os ecrãs constantes, e um ambiente de trabalho exigente e competitivo. “É importante conhecer o seu lugar seguro na Natureza e saber onde olhar, absorver e respirar”. 

A crença na astrologia e no tarot é subjetiva, e nem todos se alinharão com a teoria de que os movimentos dos planetas têm qualquer influência na vida humana. Mas todos, até os mais céticos, poderão seguir a mensagem que a taróloga deixa para os leitores da CNN Portugal: a bordo deste carro metafórico, "coloque-se em movimento no seu planeta e, mais do que tudo, viaje de encontro a si próprio e seja muito feliz".

Carolina Figueiredo