A Carris não cumpriu a recomendação do Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ) no sentido de submeter o cabo do elevador da Glória a testes de fadiga até fevereiro de 2024.
Essas análises são o equivalente, no mundo da Engenharia Mecânica, às ressonâncias magnéticas realizadas em seres humanos. Os sensores usados pelo ISQ permitem detetar bolhas de ar, corrosão, fios partidos e outras anomalias no interior dos cabos, que escapam às inspeções visuais.
Em dezembro de 2022, a Carris instalou nos funiculares históricos o primeiro exemplar do cabo com núcleo de fibra, que viria a passar nos testes do ISQ. “Em fevereiro de 2023, cerca de dois meses após a instalação do novo cabo, o ISQ realizou uma inspeção ao cabo, não tendo sido detetadas não conformidades”, esclarece o Conselho de Administração deste organismo.
Portanto, o cabo com alma de fibra não denotava problemas no primeiro trimestre de operação. Só que o ISQ queria confirmar esse diagnóstico, por isso endossou à Carris, no seu relatório, a “recomendação de nova inspeção, no prazo máximo de 12 meses”, como avança o jornal Nascer do SOL na edição desta semana.
Em 2022, testes levaram à substituição do cabo
A Carris viria a substituir o cabo um ano e meio depois, sem ter pedido a segunda inspeção no prazo recomendado. O relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF) detalha que esse cabo puxou o Elevador da Glória até finais de agosto de 2024. O segundo exemplar do cabo com “alma” em fibra entrou ao serviço no dia 1 de outubro de 2024. Aguentou-se até o dia da tragédia: 3 de setembro de 2025.
O Conselho de Administração da Carris explica agora que “em 2024 não houve inspeção eletromagnética porque se verificou a reparação geral com substituição do cabo”. Em mensagem escrita à TVI e CNN Portugal, garante que “estava prevista a nova inspeção para outubro de 2025”.
O acidente aconteceu um mês antes. Falta saber se os testes eletromagnéticos poderiam ter evitado a tragédia.
Em julho de 2022, uma inspeção ao cabo de aço, por parte do ISQ, levou à sua substituição aos 384 dias de serviço, muito antes dos 600 previstos. Nessa ocasião, os sensores detetaram anomalias suscetíveis de criar problemas de segurança.
Não é certo, no entanto, que uma inspeção ao cabo do acidente tivesse o mesmo resultado. Os sensores do ISQ não têm acesso às extremidades do cabo, designadamente à “pinha” de amarração à cabine. Como a CNN avançou em setembro, há indícios fortes de que essa peça foi mal executada. O GPIAAF, com uma radiografia por raios gama, detetou bolhas de ar no seu interior, que são sinónimo de perigo.
Sujeitar as “pinhas” a radiografias e testes magnéticos implicaria desmontar várias peças e imobilizar os elevadores vários dias. As normas europeias prescrevem inspeções mensais dessa natureza, mas nunca foram cumpridas pela Carris.