Um avião Boeing 737 voltou a estar no centro de uma polémica, depois de ter sido forçado a aterrar de emergência após uma janela se ter estilhaçado, não tirando por pouco a vida a um dos seus passageiros.
A aeronave da Ryanair descolava de Salónica, na Grécia, quando, em linha de subida - a cerca de 15 mil pés, o equivalente a quatro mil metros de altitude - uma janela se partiu, sugando parcialmente um homem de 61 anos para fora do avião.
Para José Correia Guedes, ex-comandante da TAP, pode destacar-se precisamente a altitude como o “fator benigno” e decisivo de toda a situação, já que com uma pressão maior o acidente teria resultado na morte certa da vítima, que teria sido “esmagada”.
De acordo com o especialista, a cabine terá sofrido uma despressurização, sendo que o avião estava já pressurizado, garantindo o fluxo de oxigénio mesmo numa altitude em que o ar se torna rarefeito. E este “foi o lado bom, ou seja, a janela ter partido ainda a uma altitude bastante baixa, portanto a menos de metade da altitude a que o avião voa normalmente, porque se tivesse sido lá em cima, em cruzeiro, a pressão era muito maior e o passageiro provavelmente, apesar de não caber na janela, era sugado porque era esmagado”.
Nesse caso, as consequências teriam sido “bastante piores em vários aspetos”, podendo mesmo incluir a morte de mais pessoas.
José Correia Guedes sublinha ainda que, com uma pressurização mais forte, nem o cinto de segurança seria suficiente para salvar o passageiro. “Com cinto ou sem cinto ele era sugado cá para fora, porque a diferença de pressão é tão grande que ele não iria resistir, e seria simplesmente esmagado”, observa.
Um impacto "brutal"
A principal suspeita é de que um pedaço do motor adjacente à janela onde seguia o passageiro se tenha desprendido da estrutura e, consequentemente, tenha sido projetado a uma velocidade “altíssima”.
É, pelo menos, esta a informação que tem sido avançada por vários meios de comunicação locais gregos, com duas fontes a adiantar os mesmos detalhes à Reuters.
À CNN Portugal, o antigo comandante da TAP explica que “aqueles motores giram a altíssima velocidade, a muitos milhares de rotações por minuto e estamos a falar de peças de titânio e assim por diante, metais extremamente resistentes”. A confirmar-se como causa do acidente, seria impossível a janela do avião aguentar o impacto “brutal”: “É como se levasse com um míssil”.
Caso a falha no motor se verifique as autoridades deverão analisar o histórico do aparelho, verificar se os seus componentes são legítimos e se a sua manutenção estava em dia. Se, por outro lado, o motivo do acidente for outro, a investigação poderá assumir contornos mais sérios, “porque teríamos uma falha estrutural, o que não pode acontecer”, completa.
"Isto não devia ter acontecido"
O especialista explica também que nenhuma aeronave, da Ryanair ou de outra companhia aérea, está livre deste perigo. “Este tipo de incidente, e nomeadamente se a causa for o motor, pode acontecer a qualquer avião, sem sombra de dúvida”, garante, acrescentando que a Ryanair, de todas as companhias, não se pode dar ao luxo de ter um acidente grave, uma vez que “perderia imediatamente o mercado”.
É por isso que, diz, “não poupam na manutenção” das suas aeronaves e mantêm parâmetros de treino “exatamente idênticos” aos das companhias europeias.
Ainda assim, aquilo que terá sido um grande susto para o sobrevivente “não devia ter acontecido”. “Isto de a janela estilhaçar não devia acontecer. Não pode acontecer. Estes vidros são formados por acrílicos, materiais extremamente resistentes, justamente para aguentarem a brutal diferença de pressão entre o interior e o exterior, portanto isto não devia ter acontecido”, reforça o antigo responsável, que dá conta da composição da janela dos passageiros - “completamente diferente” da janela do cockpit dos pilotos.
A estrutura é composta por três painéis diferentes: “um principal, um acessório e outro que é irrelevante.”
“O painel do meio é o estrutural, aquele que aguenta a diferença de pressão entre o interior e o exterior. Depois há um painel exterior, que é o que vai lidar com o frio, com a fricção do ar, e serve também de reserva de apoio, no caso de falhar, por qualquer razão, o painel estrutural. E existe um painel interior, que é aquele a que o passageiro tem acesso, mas este não tem funções estruturais, serve só para proteger o painel interior de riscos, coisas do género. É um painel de plástico, portanto sem qualquer relevância”, enumera José Correia Guedes.
Mesmo com a tripla camada, ao existir um furo, há uma despressurização, podendo resultar na quebra da janela.