Popularidade do AfD na Alemanha já faz equacionar abertura de CDU a alianças - TVI

Popularidade do AfD na Alemanha já faz equacionar abertura de CDU a alianças

  • Agência Lusa
  • PF
  • 3 ago 2023, 09:50
Tino Chrupalla e Alice Weidel, líderes do partido de extrema-direita alemão AfD (AP)

A co-líder do partido de extrema-direita, Alice Weidel, apelou à queda do 'cordão sanitário' imposto pelas forças políticas democratas, utilizando como trunfo as sondagens que atualmente colocam o AfD com cerca de 20% das intenções de voto nível nacional

Um debate, até há pouco impensável na Alemanha, sobre os conservadores da União Democrata Cristã (CDU) poderem aliar-se a um partido de extrema-direita, abriu-se com a subida de popularidade do Alternativa para a Alemanha (AfD).

Criado há 10 anos, o AfD está atualmente em alta nas sondagens a nível nacional, surgindo lado a lado com os socialistas do SPD do chanceler alemão Olaf Scholz em segundo lugar nas intenções de voto, com cerca de 20%, apenas atrás da CDU, e, com dois recentes sucessos eleitorais inéditos em escrutínios regionais, alcançados já este verão, aponta já a mira às próximas eleições, tendo desafiado os democratas-cristãos a formar alianças num futuro próximo.

Durante a convenção que decorre desde o passado fim-de-semana em Magdeburgo, a co-líder do partido, Alice Weidel, apelou à queda do 'cordão sanitário' imposto pelas forças políticas democratas, utilizando como trunfo as sondagens que atualmente colocam o AfD com cerca de 20% das intenções de voto a nível nacional e argumentando que é antidemocrático por parte dos partidos tradicionais “excluírem” os milhões de eleitores representados pela Alternativa.

O outro atual co-líder do partido, Tino Chrupalla, também apontou que o partido tem boas perspetivas de vencer três eleições estaduais no próximo ano, pelo que se deve preparar para “assumir responsabilidades de Governo” e considerou um erro criar-se uma barreira entre os partidos conservadores e o AfD, apelando a todos os apoiantes da direita na Alemanha para “derrubarem esse muro”.

A inquietação entre muitas forças democráticas sobre a eventualidade de o ‘cordão sanitário’ ter os dias contados prende-se não só com as sondagens, mas também com recentes sucessos eleitorais do AfD, que em junho elegeu pela primeira vez um chefe da administração local, na segunda volta das eleições na comarca de Sonneberg, na Turíngia, e em julho elegeu mesmo o primeiro presidente de câmara a tempo inteiro da AfD, numa localidade no estado de Saxónia-Anhalt.

Os níveis de confiança do AfD estão assim em máximos históricos, com o partido a perspetivar vitórias de vulto nas três eleições estaduais previstas para o próximo ano, todas elas em antigos estados comunistas do Leste da Alemanha - Turíngia, Brandeburgo e Saxónia -, onde o partido goza de particular apoio.

E é precisamente o poderio (para já) local do AfD que faz muitos analistas e observadores alertarem para o risco de rompimento do ‘cordão sanitário’ formado por partidos tradicionais que desde sempre manteve a extrema-direita isolada, e que na Alemanha foi até hoje particularmente robusto, em boa parte devido ao passado nazi do país.

No entanto, recentes declarações do líder da CDU causaram sensação na Alemanha, quando, no rescaldo dos triunfos locais do AfD, Friedrich Merz, em entrevista à cadeia televisiva ZDF, comentou que “se um conselheiro de um cantão, um presidente de câmara, for eleito e pertencer à AfD, é natural que seja necessário procurar vias para continuar a trabalhar em conjunto nessa cidade”.

O coro de críticas que se seguiu, incluindo de vários setores da CDU, levaram Merz a ‘emendar a mão’ e a garantir, na semana passada, que “não haverá qualquer cooperação a nível local da CDU com o AfD”, mas a polémica, e a possibilidade, já estava lançada.

Por outro lado, vários analistas políticos notam que, à imagem do que acontece noutros países europeus onde a extrema-direita está a subir em popularidade, algumas figuras da CDU já adotaram um discurso mais radical e mais próximo das posições da AfD, para tentarem recuperar o eleitorado conservador que o partido de extrema-direita conquistou.

Todavia, a tendência dentro da CDU parece para já ser a de manter uma firme rejeição a qualquer cooperação com um partido que se tem notabilizado por defender posições cada vez mais extremistas, e que é anti-imigração, anti-União Europeia, negacionista das alterações climáticas e que se opõe ao apoio à Ucrânia para fazer face à agressão militar russa.

"A CDU não pode, não quer e não vai cooperar com um partido cujo modelo de negócio é o ódio, a divisão e a exclusão", comentou recentemente o presidente da Câmara de Berlim e líder da CDU na capital alemã, Kai Wegner.

Também o chefe do governo da Baviera, Markus Söder presidente da União Social Cristã [CSU, a ala regionalista da CDU e implantada nesta região do sul da Alemanha] também rejeitou categoricamente qualquer cooperação com a AfD “a qualquer nível político”, apontando que esta força é “antidemocrática, de extrema-direita e divide a nossa sociedade”.

Enquanto o chanceler Olaf Scholz – que lidera um governo de coligação que inclui, além do SPD, os Verdes e os Liberais – relativiza a aparente ascensão do AfD, tendo-se afirmado convicto no mês passado de que o atual impulso nas sondagens do partido de extrema-direita é um fenómeno provisório e que o seu resultado nas próximas eleições gerais de 2025 “não será muito diferente do registado nas últimas eleições” – ou seja, 10,3% dos votos, metade do que lhes dão as intenções de voto hoje -, o Presidente alemão parece mais preocupado.

Numa entrevista à ZDF no mês passado, Frank-Walter Steinmeier admitiu preocupação com a popularidade crescente do AfD, afirmando que “sim, as sondagens são preocupantes” e apelando à “responsabilidade dos cidadãos eleitores”.

Certo é que a cena política alemã tem atualmente um ator com protagonismo reforçado, que tem sabido tirar partido do descontentamento de boa parte do eleitorado com as políticas do governo de coligação liderado por Scholz em matérias como política migratória, energética, ambiental, de apoio à Ucrânia e num cenário de subida da inflação, e que é cada vez mais difícil de ser ignorado, com ou sem ‘cordão sanitário’.

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