De Guilhofrei à Operação Picoas: guia para o caso Altice - TVI

De Guilhofrei à Operação Picoas: guia para o caso Altice

Altice

Em causa estão suspeitas de crimes como falsificação, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada

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Ainda antes do namoro com a Altice, já a antiga PT – Portugal Telecom era dada a polémicas. Mas a venda aos franceses, formalizada em junho de 2015 - embora a Comissão Europeia desconfiasse que eles já mandassem na casa antes de a controlarem - só veio exponenciar tudo.

A Altice comprou a PT à Oi por mais de sete mil milhões de euros, depois de uma fusão luso-brasileira falhada e na ressaca da queda do Grupo Espírito Santo, onde a PT tinha investido quase 900 milhões de euros em papéis comerciais da Rioforte, numa operação não divulgada ao mercado.

Porque queriam o milionário francês Patrick Drahi e o seu aliado Armando Pereira, com origens portuguesas, investir no negócio? Por entre a desconfiança e o fascínio com os novos protagonistas deram-se os passos necessários. E desde aí muito mudou na PT. A começar pelo nome, agora Altice. A marca Meo, apesar da vontade para que fosse também eliminada, acabou por resistir.

A Altice já estava em Portugal através da Cabovisão e da Oni, negócios que teve de vender por exigência de Bruxelas para poder controlar a antiga PT. E foi na Cabovisão que se estreitaram as relações entre os principais nomes da chamada Operação Picoas: Armando Pereira, Hernâni Vaz Antunes e Alexandre Fonseca.

A Altice entrava em Portugal empenhada a investir na inovação com o Altice Labs e no desenvolvimento de tecnologias de fibra ótica e de redes móveis 5G - bem como no desenvolvimento de conteúdos, algo que o chumbo da Autoridade da Concorrência à compra da Media Capital (grupo ao qual pertencem a CNN Portugal e a TVI) veio dificultar.

As suspeitas foram-se afirmando com notícias sobre os negócios nas mais diversas áreas. Primeiro na fibra ótica, com a alegada criação de empresas para substituir os fornecedores tradicionais e que mais tarde viriam a ser compradas pela Altice, com ligações à família de Hernâni Vaz Antunes, detido na Operação Picoas.

Depois com os negócios imobiliários do fundo imobiliário da antiga PT, numa rede de empresas que volta a ter Hernâni Vaz Antunes como protagonista. Alexandre Fonseca comprou, num negócio que o Ministério Público terá de apurar se foi simulado, uma moradia de luxo em Oeiras a uma dessas empresas.

A estratégia da Altice em Portugal nos últimos anos tem passado pela alienação de património: vendeu o negócio das torres de telecomunicações, metade da rede de fibra ótica e muito imobiliário. Em 2022, depois de rumores de que Patrick Drahi queria vender a própria Altice Portugal, esse cenário era afastado por não terem sido conseguidas propostas com o valor desejado, apesar de vários interessados.

A empresa tem vivido num clima de tensão laboral, entre vagas de despedimentos e acordos, mesmo que o grupo insista que tem hoje mais funcionários do que quando chegou a Portugal. Os sindicatos alegam que estão a ser substituídos antigos contratos por relações laborais cada vez mais precárias.

A Altice Portugal tem aproveitado este contexto para apontar culpas ao regulador do setor, a Anacom, sobretudo pelos atrasos no 5G. Mas, entre casos e polémicas, a empresa vai avançando. Por exemplo, foi alvo de críticas por falhas no sistema SIRESP durante os grandes incêndios de 2017. A empresa nunca foi responsabilizada ou sancionada. O Estado passou a controlar o SIRESP mas continuou a concessionar-lhe o serviço.

Armando Pereira (e o amigo Hernâni Vaz Antunes)

O cofundador da Altice Armando Pereira tem origens humildes em Guilhofrei, Vieira do Minho, mas hábitos que contrariam essa visão, como o chegar de helicóptero à propriedade na terra natal ou os seus carros de luxo. Emigrou para França aos 14 anos. Começou a instalar cabos de telefone e em 1985 abriu a própria empresa de telecomunicações, tornando-se fornecedor da maior operadora de telecomunicações em França, a então France Telecom, ao aproveitar o crescimento da televisão por cabo. Ao vendê-la tornou-se milionário. Foi com o franco-israelita Patrick Drahi que fundou a Altice. Hoje já não está no conselho de administração da Altice Europe, onde chegou a ter cerca de 30%.

O português afastou-se entretanto de Drahi, que tinha confiado em Armando Pereira para reorganizar a Altice quando esta entrou em Portugal, não poupando nos cortes. Na altura, teve a ajuda de Hernâni Vaz Antunes, empresário de Braga que o acompanhava desde a Cabovisão e que ficou conhecido como “comissionista”, por ter pedido 69 milhões de euros à brasileira Oi por ter apresentado a Altice aos antigos donos da PT. Tinha-se especializado na criação rápida de empresas e na intermediação imobiliária.

 

Alexandre Fonseca (e a confiança crescente)

Alexandre Fonseca, que suspendeu funções no grupo Altice na sequência na Operação Picoas, é outro dos nomes determinantes da presença do conglomerado em Portugal. Foi escolhido em 2017 para presidente-executivo da empresa.

A ligação a Armando Pereira era clara: tinha sido responsável pela área de tecnologia da Cabovisão, detida anteriormente pela Altice. É visto como alguém metódico, direcionado para objetivos e com um gosto profundo pela tecnologia.

Foi CEO da Altice Portugal durante cinco anos, antes de assumir a função à escala internacional. Em 2023 foi também apontado como “chairman” da Altice USA, consolidando o percurso neste universo empresarial.

 

Patrick Drahi (o homem forte da Altice)

É o homem que assume o controlo total da Altice Europe desde 2021. Patrick Drahi começou a carreira com uma pequena operadora de cabo fundada no sudeste de França. Foi depois comprando e vendendo várias empresas neste ramo, consolidando a fortuna. Não tem propriamente a melhor fama: corta a direito, deixa os trabalhadores sob pressão, é conhecido por gostar de pagar pouco, exceto aos líderes de topo.

Em 2016 foi-lhe concedida a nacionalidade portuguesa ao abrigo da lei para os descendentes de judeus sefarditas. Em 2022 era notícia que as autoridades portuguesas estavam a investigar a certificação da nacionalidade.

Além das telecomunicações, também apostou na arte: em 2019 comprou a leiloeira Sotheby’s por cerca de 3,3 mil milhões de euros.

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