Uma casca de banana ou uma marmita de arroz. Porque discutem os casais portugueses? - TVI

Uma casca de banana ou uma marmita de arroz. Porque discutem os casais portugueses?

Casal (Getty Images)

Fevereiro é o mês do amor. Mas ele está longe de ser um mar de rosas. As discussões fazem parte do processo. E, para superá-las, pode ser preciso pedir ajuda profissional. Até as coisas mais simples servem para atirar ao outro. Afinal, queremos todos ter a razão do nosso lado.

Antes de avançar mais, há uma coisa que precisa mesmo de saber. “Os casais só discutem sobre duas coisas: sobre tudo e sobre nada”. Catarina Lucas di-lo entre risos, por saber que é a mais pura das verdades, após mais de uma década como psicóloga e terapeuta de casais.

Mas há histórias que ficam mais na memória do que outras, pelo lado caricato que têm. A primeira tem como protagonista uma casca de banana. “A mulher usou o carro do marido e deixou a casca de banana na porta. E isso gerou uma discussão brutal”. E, quando, na sessão, o tema parecia ultrapassado, o casal acabava sempre por voltar à casca de banana.

A segunda é motivada por uma marmita com arroz, que ficou mais de uma semana a estragar-se no frigorífico. “Quem a devia ter tirado, não a tirou”. E assim começou a troca de acusações num outro casal.

Esta casca de banana e esta marmita de arroz são apenas “sintomas” de problemas maiores no casal. “Há qualquer coisa mais grave. Tudo serve para fazer uma grande discussão. Tudo serve para se agredirem. É como se fossem pedras, que vamos apanhando, para atirar ao outro”. Tanto que os argumentos, na hora de fazer retrospetivas, podem acabar na “pré-história”, brinca a especialista.

O saco vai enchendo e, na hora de levar os problemas para o divã, quando os casais dão esse passo, “o casal está sempre a medir forças”. É tudo uma questão de cada um ter o poder, a razão do seu lado. Sabe do que estamos a falar, não sabe?

Sinais de crise nos casais pode estar nas pequenas coisas (Pexels)

“O amor está em crise”. Mas em todas as crises há oportunidades

Catarina Lucas – autora do livro “Vid a Dois: Um olhar sobre o casal, as relações e a sexualidade” - reconhece que a terapia de casal é uma área com uma procura crescente, até porque cada vez menos há um “estigma associado” e falar da intimidade começa a ser algo mais confortável. “Há um ‘boom’ na procura. Às vezes brinco e digo que o amor está em crise”.

“Antes, a separação não era uma coisa comum ou bem aceite. As pessoas resignavam-se a relações de infelicidade. Aceitavam que era assim”. Mas os tempos mudaram e há cada vez mais divórcios. Segundo os Censos 2021, 8% dos portugueses têm este estado civil. “Queremos viver o amor e a sexualidade de uma forma gratificante”. E isso, muitas vezes, significa tentar outro amor.

Mas é possível salvar uma relação que está tremida e parece condenada? Catarina Lucas garante que sim. Mas com um alerta: “As pessoas tendem a associar as taxas de sucesso à continuidade do casal. Contudo, uma terapia bem-sucedida pode levar à separação”. Já diz o velho ditado que mais vale sozinho do que mal acompanhado.

Há maior procura pela terapia de casal (Pexels)

Agir enquanto há sentimento. E evitar “anos de trabalho”

Quando devem os casais partir para a terapia? Mal comecem a existir sinais de fratura que pareçam difíceis de ultrapassar sozinhos. Até porque, numa fase inicial, costuma implicar que o sentimento entre o casal ainda está vivo. E isso é meio caminho andado para o sucesso. “O casal tem disponibilidade e quer lutar por aquilo que vale a pena”.

Mas, ao consultório de Catarina Lucas, há muitos casais a chegar com o argumento de que só ali estão “por descargo de consciência”, como “último recurso”. Quando o casal chega assim “destruído”, focado na agressão mútua, sem acreditar, o processo é muito mais moroso.

A terapeuta dá o exemplo dos casos de infidelidade, que são “duríssimos de gerir”, “das coisas mais difíceis de se ultrapassar”, mas assegura que é possível recuperar deste trauma. “Não são meses, são anos de trabalho”.

A rotina é, muitas vezes, a grande culpada do desencanto na relação. A paixão inicial passa a amor. “E os ingredientes do amor são antiafrodisíacos. O amor é protetor, mas o desejo sexual não é nada disso”. Alimenta-se da descoberta, da novidade, da experimentação.

“Temos expectativas irrealistas sobre o que é a sexualidade nas relações longas. Temos de aprender a estar confortáveis na rotina. E não, uma relação não é como vemos nos filmes e nas redes sociais”.

No seu doutoramento, Catarina Lucas está a estudar o desejo sexual e o que o mantém nas relações longas. Mas, entre risos, diz que ainda vai precisar de muito tempo para chegar a uma conclusão.

Atacar o outro é uma forma de procurar poder e razão na relação (Getty)

Já se pôs no lugar do outro?

Se a sua relação já passou por melhor dias, mas ainda assim não quer atirá-la para o caixote do lixo, há uma dica que pode ajudar a começar o processo de terapia. “É a empatia, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. De percebermos como o outro gostaria de ser tratado, que não é nosso inimigo, que não vivemos numa batalha”.

Um dos passos passa por “conectar” o casal com a sua própria história, com o que havia de bom, com aquilo que ultrapassaram em conjunto e o seu potencial para continuar a fazê-lo.

“Tinha aqui em consulta um casal com muitos anos de relação. Eles falavam do que era ser um casal bem-sucedido. Apontavam para outros. Mas eles eram o exemplo perfeito”. Na vida, como no amor, olhar para o lado e fazer comparações nem sempre é boa ideia.

Recordar os momentos felizes é um caminho para traçar o futuro a dois (Pexels)

Novas formas de amor. Os casais, os trisais e seus derivados

Chama-se terapia de casal. Mas desengane-se se pensa que serve apenas para o modelo mais tradicional, composto por dois elementos, sejam eles de géneros diferentes ou iguais. Há novas formas de relação a sentar-se nos divãs dos psicólogos. Quer exemplos? As relações abertas, onde os elementos do casal autorizam o parceiro a ter relacionamentos (sobretudo sexuais, pontuais, geralmente sem compromisso) com outras pessoas, mas acertando sempre que a primazia será a relação que criaram.

Ou as relações poliamorosas, onde essa hierarquia deixa de existir, tendo um indivíduo envolvimento emocional e sexual com várias pessoas, com o consentimento de todos os que fazem parte dessa realidade de partilha.

Catarina Lucas reconhece que ainda há poucos dados para perceber, com rigor científico, “a trajetória destas relações”, porque só agora elas começam a entrar na esfera pública e a ser compreendidas com maior naturalidade.

Mas, mesmo quando alguém decide entrar numa relação poliamorosa, há desafios bem tradicionais que podem surgir no processo. “Porque, em teoria, faz sentido. Mas vêm questões emocionais como o ciúme. Quando somos confrontados com a realidade, parece que toca num lado mais instintivo, de posse, de poder”.

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