"A centralização vai-nos permitir estar em contraciclo com as ligas europeias" - TVI

"A centralização vai-nos permitir estar em contraciclo com as ligas europeias"

  • CNN Portugal
  • 9 mai, 20:00
André Mosqueira do Amaral, líder do processo de Centralização

Entrevista com André Mosqueira do Amaral, Diretor Executivo da Liga Portugal, Parte III

O processo de centralização dos direitos audiovisuais está numa fase decisiva. Depois de ser aprovado o Regulamento de Comercialização – com 92% dos votos – prepara-se nova Assembleia Geral da Liga Portugal, desta vez para aprovar a chave de distribuição de receitas. É um tema sensível, já que ninguém quer receber menos do que aquilo que consegue, agora, auferir.

A Liga acredita que a centralização será fundamental para melhorar as infraestruturas do futebol português (que não se resumem aos estádios e centros de treino) e, também, para combater o fenómeno da pirataria.

Havendo centralização, quais são as prioridades? Melhorar as condições dos estádios, por exemplo?  Vai haver capacidade para isso?

Sim, absolutamente.

Ou seja, não podemos comparar o estádio do Moreirense, por exemplo - que até é um «clube TVI» - com os estádios do Dragão, da Luz ou de Alvalade. Vai haver capacidade para investir ao nível das estruturas?

Sim. Voltando ao tema do Investors Day, ficou claro que existe o apetite dos investidores - e da comunidade de investidores institucional e internacional - para investir no nosso ecossistema.

O que nos compete fazer é ver, com esses investimentos, onde é que vamos conseguir maior retorno, não só para o investidor, mas também para as sociedades desportivas, sobretudo, e para aquilo que é a experiência do produto. Porque o próprio adepto está a melhorar a sua experiência, seja no estádio, seja também quem está remotamente - o espetador, seja a nível de redes sociais, seja a nível de televisão, etc.

E isso não depende só do estádio. Muitas outras coisas contribuem para que essa experiência seja melhor.

Uma das grandes preocupações dos operadores e de quem compra direitos de transmissão de futebol é a pirataria. Nesse aspeto estão preparados para fazer o quê?

Para já é olhar para a pirataria de uma forma muito pragmática e muito crítica. E dizer porque é que ela acontece. Já demos aqui um exemplo, ela acontece porque o produto pura e simplesmente não está disponível. Isso é a primeira coisa que temos de resolver. E, lá está, na centralização consegue-se resolver isso.

Não só na sua disponibilização - e temos um exemplo agora, que é a charneira da Premier League, que para alguns mercados começou a usar diretamente a sua OTT (serviço de distribuição pela internet, n.d.r.) a sua app, para transmitir nesses mercados.

Aliás, na Liga, nesta Direção, já conseguimos fazer isso. No final da época passada, quando já estávamos em funções, pela primeira vez transmitimos jogos - nesse caso alguns play-offs e uns jogos daquela pré-época - na nossa OTT, a nível internacional.

Portanto, conseguimos demonstrar que a Liga tem a capacidade de produzir, transmitir e distribuir de forma autónoma o seu produto. Isto é importante no nosso posicionamento de mercado e é algo que vamos continuar a utilizar.

E fiquei muito contente ao ver a Premier League, obviamente num contexto muito diferente, a usar o mesmo princípio para alguns mercados, no caso para Singapura.

Portanto, é dizer: o meu produto vai chegar lá e nós temos todas as ferramentas para que isso aconteça. Estamos em posição de o fazer, já o demonstrámos e vamos continuar a fazê-lo.

Mas a pirataria…

A outra questão da pirataria é a questão da proposta de valor do produto autêntico. Porque é que eu vou para o produto ilegal e não vou para o produto autêntico? O que posso fazer para o melhorar?

Aí, estamos a fazer um levantamento muito intenso, de cara com aquilo que vai ser o processo de venda dos nossos direitos, que é: o que conseguimos fazer agora para agenciar lá à frente um produto superior.

Aí temos a questão, por exemplo, da hipercustomização, da hiperpersonalização.

Hoje, com a IA, eu consigo chegar a casa – imagine que estive a semana toda fora - ligo a televisão e só quero ver o que é que aconteceu ao meu clube na semana passada. Ou o que é que aconteceu com o meu jogador favorito na semana passada. E isso permite render um produto hipercustomizado.

O desenho da centralização - e era uma das coisas que estava no regulamento que foi aprovado com muito sucesso na nossa última Assembleia Geral - é exatamente isso: incluir todas essas sementes, todas essas considerações, para assegurar que o nosso produto, lá à frente, tem todas as condições para ser um produto de entretenimento que é inegável na sua qualidade e na sua proposta de valor.

E apetecível?

E apetecível, exatamente. Nós, aliás, estamos a seguir um estudo de outra propriedade desportiva, nos Estados Unidos, que está a fazer o trabalho inverso, que é entrar no sinal pirata e ir ganhar clientes para o produto autêntico. Há muitas estratégias, só para dar um exemplo delas.

Há também questões de litigância que têm de ser vistas. Ou seja, onde deve a Liga agir?

Já fizemos isso a nível da contrafação, do merchandising. Estamos a ser, com o Presidente Reinaldo Teixeira, super ativos nisso: não permitir que nos subtraiam aquilo que é a nossa propriedade, a propriedade das sociedades desportivas. E o que estamos a fazer na contrafação, estamos a fazer na pirataria.

Uma das vantagens da centralização versus uma fragmentação, é, também, a Liga posicionar-se como o centro do combate à pirataria. É isso que acontece noutras ligas e é isso que vamos ter de fazer aqui.

O valor dos direitos de transmissão estagnou, ou tem mesmo vindo a baixar em algumas ligas. Se ninguém der o dinheiro pretendido, se ninguém pagar aquilo que a Liga entende que vale o futebol português, é possível avançar para uma distribuição própria? Ou seja, vai produzir conteúdos, criar formas de distribuição, vai à procura do mercado?

Acho que temos de partir essa pergunta em algumas partes.

Nós estamos em contraciclo. A tendência em algumas propriedades de ligas nacionais tem sido de decréscimo. Ou onde não há decréscimo, há mais inventário; elas contribuem com mais inventário, portanto conseguem manter o preço ou até subir. Mas se formos a ver a métrica, preço por jogo, se calhar temos um decréscimo.

Agora, nós vimos de uma base completamente diferente. A Liga Portugal começa numa base diferente, desde logo porque é uma liga fragmentada. Portanto, a avaliação que é feita quando estamos a comparar o amanhã com o hoje, estamos a comparar realidades completamente diferentes e em que não estamos a monetizar de forma nenhuma o benefício da agremiação, de fazer algo de forma coletiva.

Eu diria que essa comparação permite-nos dizer que vamos estar em contraciclo. Isso é manifesto.

Já conseguimos contrapor os nossos modelos com outras entidades especializadas na matéria - que validam o nosso modelo - e, portanto, estamos bastante confiantes naquilo que é o potencial de valorização que temos vindo a partilhar com as sociedades desportivas.

E a produção de conteúdo próprio?

Relativamente a outras avenidas de explorar o produto, já dei o exemplo da Liga TV, que está apetrechada para produzir, transmitir e distribuir - e está pronta para fazer isso agora. É uma realidade que temos.

A nossa missão enquanto liga e enquanto entidade que representa os interesses das sociedades desportivas é ter toda a caixa de ferramentas disponível, toda a artilharia disponível para valorizar o produto.

Essa valorização do produto num leilão, digamos, semelhante aos leilões das outras ligas… compete-nos maximizar a tensão competitiva. E é por isso é que ficamos muito contentes por ter sete ofertantes que querem estar presentes no nosso leilão com garantias - e que são players importantes neste domínio.

E, para além disso, continuar a ter todas as possibilidades consagradas nos regulamentos e na maneira como vamos vender este produto, para assegurar que o produto final seja inegável na sua qualidade, na sua proposta de valor.

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