Era Joana quem todos esperavam ouvir. Depois dos peritos, dos patrocinadores, dos irmãos e dos amigos, era a voz dela que faltava à história — a principal visada, a alegada ofensora, a autora do vídeo que fez correr tanto código civil.
Trocou o estúdio pelo tribunal, o humor pelo depoimento. Riu-se pouco. Falou com nitidez — a frase pensada, a pausa justa, a resposta pronta sem ser decorada. Não havia ali punchlines nem provocação, mas também não havia recuos. Entre réplicas, hesitações e silêncio judicial, disse muito. Disse o suficiente para se perceber o alcance — e os limites — de uma piada, a anatomia de um guião cómico, a distância entre o ataque e o absurdo.
E, no meio desse equilíbrio entre frontalidade e contenção, algumas frases foram ficando. Ditas com aparente leveza, sem sublinhados ou exclamações, mas com o peso de quem está no centro de um debate que já não é só dela. Frases que se colam à memória como notas de rodapé de uma discussão maior: sobre liberdade, humor e reputação. Aqui ficam cinco.
1. “Se o meu vídeo era para rir, juíza? Era para rir, sim”
Não houve rodeios. A pergunta da juíza foi direta e Joana também. O vídeo, esse, publicado no Instagram em 2022, misturava imagens dos Anjos a cantar o hino nacional no MotoGP com reações de jurados do programa Ídolos. A sátira era evidente — para uns. Para outros, uma afronta. “A minha intenção é ali igual à intenção em tudo o que faço: fazer rir — o que já por si não é fácil. Umas pessoas riem-se, outras não.” A frase arrancou risos da sala (menos da parte dos irmãos Rosado) e marcou o tom do que viria. Era humor, diz Joana. Só não foi unânime.
2. “Todas as pessoas que são figuras públicas têm influência. Como os Anjos também terão”
A juíza quis saber quem é Joana Marques. Humorista, radialista, figura digital — mas também alguém com um microfone e 318 mil seguidores no Instagram. Alguém que, por ser conhecida, pode amplificar mensagens. A linha entre a sátira e o impacto que ela gera esteve em cima da mesa. Joana não negou a sua influência — apenas a responsabilidade sobre os efeitos alheios. “As pessoas têm comportamentos meio tribais na internet e não precisam de ninguém a instigá-las.”
3. “Recebo muitas cartas quando não gostam da minha sátira”
A advogada dos Anjos quis saber porque Joana não retirou o vídeo, mesmo depois de alertada para alegados danos reputacionais. Joana falou sobre cartas. Muitas cartas. “Sempre que alguém é alvo de uma sátira e não gosta muito, eu recebo cartas a dizer que sofrerei consequências.” Já nem sempre responde. “Os Anjos insistiram na retirada. Que era melhor tirar ou íamos ter chatice. Aí já não respondi.” Como se o aviso — “vai haver chatice” — fosse já um desfecho anunciado.
4. “Humor que não ofenda não existe”
A frase caiu como um manifesto. Joana recusa a ideia de que o humor deva agradar a todos. “Se a condição para existir humor é não ofender ninguém, no final não havia nenhum humor.” Não é por desconsiderar os outros, sublinha. É por observar. Por ver graça no mundo, como viu em Rita Pereira no lounge do aeroporto de Dubai ou nos irmãos Rosado a cantarem o hino. E por transformar essa graça em comentário. Joana insiste: “O humor que eu faço é sobretudo humor de análise ao quotidiano”.
5. “O humor não é uma desconsideração”
É a última linha de defesa. E talvez a mais importante. O vídeo, reiterou Joana, não pretendia humilhar, caluniar ou destruir reputações. Era uma sátira, feita com uma aplicação de telemóvel, sem edição profissional, sem campanha. Mas foi reutilizado pela humorista e, reutilizado, aumentaria danos. “Eu reutilizei o vídeo porque, como outros, resumia aquele ano [de 2022]. E uma sugestão de que as pessoas não se deviam levar tão a sério.” A frase ecoa, sobretudo porque os Anjos alegam o contrário: que a sátira lhes custou contratos, oportunidades e tranquilidade. Mas para Joana, o vídeo era apenas isso: uma brincadeira, entre tantas outras.
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No fim, Joana Marques não se desdiz. Assume o incómodo que possa ter causado, mas recusa a moldura da ofensa. “Chatear” — sim, talvez. “Humilhar” — não, nunca. Há um ponto em que traça a linha, com a convicção de quem passou a vida a brincar com o traço. “Quem sofre bullying, de bullying a sério, se lhes perguntássemos se preferiam ser perseguidos ou alvo de uma piada, certamente preferiam uma piada.” Disse-o sem dramatismo. Só uma ideia clara, deixada a meio de uma frase, como quem oferece uma pedra para se pensar mais tarde.
Foi assim. Cinco frases. Uma sala abafada. Um vídeo mal gravado. Um julgamento que foi também um espelho — distorcido, por vezes, mas revelador. No fim, o que ficou não foi só a dúvida sobre um guião de humor, mas uma outra, mais funda, que talvez nem a sentença consiga responder. Ecoou na sala mesmo depois de Joana sair, mesmo depois do silêncio final.
Há liberdade de expressão se o humor tiver de pedir licença?