O tradutor de Mourinho que vai regressar ao Dragão - TVI

O tradutor de Mourinho que vai regressar ao Dragão

António Dias

António Dias é o preparador físico do Benfica e, tal como o chefe José Mourinho, começou a carreira no futebol a traduzir, sim, mas sempre foram muito mais do que isso

Antes de mais é necessário fazer um alerta: chamar-lhe «tradutor» é tão redutor quanto era quando se chamava «tradutor» a José Mourinho. Ambos são muito mais do que isso. Mas sim, António Dias entrou no futebol porque também conseguia fazer traduções.

É aliás muito curioso como o trajeto do preparador-físico de Mourinho, no Benfica, tem tantas semelhanças com o trajeto do próprio Mourinho.

Mas quem é afinal António Dias?

Natural de Braga, nasceu há 42 anos e licenciou-se em Desporto e Educação Física, com especialidade em Alto Rendimento no Futebol, pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Terminou o curso, de cinco anos, em 2009, numa altura em que já trabalhava no FC Porto.

Antes disso, portanto, em 2004, logo após dois anos fulgurantes sob o comando de Mourinho, a SAD liderada por Pinto da Costa apostou em Luigi del Neri para assumir o cargo de treinador.

O antigo técnico do Chievo Verona trouxe uma equipa técnica com mais três compatriotas e era necessário ter alguém na equipa técnica que soubesse falar italiano. Foi então que apareceu António Dias, que estava a formar-se em Desporto, com especialização em futebol.

«Foi absolutamente incrível. Foi um misto de sonho e responsabilidade. Foi uma oportunidade que tinha de agarrar de uma maneira ou de outra. Eu comecei com 21 anos a trabalhar na equipa profissional do FC Porto», contou mais tarde em entrevista ao site do Wolverhampton.

«No ano em que o FC Porto ganhou a Liga dos Campeões eu estava a fazer Erasmus em Itália. Então, como pode imaginar, de cada vez que havia um jogo da Liga dos Campeões, estávamos os portugueses com os outros todos, dávamos uma tanga a toda a gente. Foi um ano muito especial, a paixão pelo futebol foi elevada a um patamar um pouco mais alto, ainda por cima estando fora e tendo corrido tão bem. Depois veio Euro 2004. Foi, realmente, um ano com uma experiência pessoal no futebol muito forte.»

Mas e o FC Porto, como aparece?

«Por intermédio de um professor, acabou por surgir a oportunidade de ajudar o Del Neri que, na altura, foi quem substituiu o Mourinho no FC Porto. Recordo-me bem do meu primeiro dia. Não sabia bem onde é que havia de ir ou o que havia de fazer», lembrou.

«O meu primeiro contrato foi como tradutor no FC Porto. E foi muito interessante. Na altura, os italianos já tinham a perspetiva do trabalho físico um bocadinho mais abrangente e diversificada a nível de tarefas e de funções. Ou seja, contemplavam já, nas equipas de trabalho, mais do que um preparador físico, pelo que, para o Del Neri e para o professor Maranza, isto era uma coisa que se enquadrava e acabei por ficar ali com algumas tarefas de suporte à preparação física.»

Na verdade, António Dias tinha contrato como tradutor, mas era muito mais do que um tradutor. Ele trouxe, inclusivamente, um novo cargo às equipas técnicas em Portugal: recuperador físico.

O miúdo, então com 21 anos, era uma espécie de especialista em recuperação ativa no relvado, para além de também trabalhar muito com os jogadores que estavam a voltar de lesão e começavam a fazer treino no relvado. No site do FC Porto, era assim que aparecia: recuperador físico.

Luigi del Neri, recorde-se, só durou um mês, acabando por sair antes do início do campeonato, após perder um avião e falhar um treino: devia ter chegado de Itália ao início da tarde, mas apenas o fez já de noite e não esteve na primeira sessão de trabalho após o estágio nos Países Baixos.

O atraso, provocado por um problema no avião, foi na verdade apenas um pretexto para o despedir.

O mal-estar entre Del Neri e a equipa já era evidente, o que levantava muitas dúvidas sobre a capacidade do italiano para pegar numa equipa que era campeã europeia em título. Por isso, e ao abrigo do mês experimental que existe em todos os contratos, Del Neri foi despedido.

A saída do treinador italiano não significou o fim da aventura de António Dias no FC Porto. Pelo contrário. Impressionados com as qualidades do jovem, os responsáveis portistas convidaram-no a ficar. Permaneceu durante oito anos, até 2012, sempre como recuperador físico, nas equipas técnicas dos vários treinadores: Victor Fernández, José Couceiro, Co Adriaanse, Jesualdo Ferreira, André Villas-Boas e Vítor Pereira.

Como é ele no ambiente de trabalho?

Muito discreto e reservado, sempre concentrado no trabalho, tentava passar despercebido no meio das luzes que caíam sobre o FC Porto. Diz ele que o objetivo era apenas um: conseguir enquadrar-se no patamar dos melhores do mundo.

«Uma estratégia que eu encontrei foi manter algum distanciamento, do ponto de vista pessoal. Muitas vezes os jogadores convidavam-me para ir jantar ou passear, mas desde muito cedo percebi que não podia entrar por esse caminho, porque poderia ser mais difícil para mim manter as relações profissionais. Foi algo que foi quase uma regra minha, por assim dizer, para conseguir agarrar a oportunidade que tive e conseguir incubar no futebol profissional.»

Em oito temporadas foi seis vezes campeão.

Mas António Dias queria mais e em 2012 chega o convite para dar um passo em frente. Nuno Espírito Santo ia lançar-se como treinador principal no Rio Ave, após três temporadas a trabalhar como treinador de guarda-redes de Jesualdo Ferreira, e precisava de montar uma equipa técnica.

Conhecia António Dias dos anos em que trabalharam juntos no FC Porto e não hesitou em convidá-lo para preparador físico. Os dois começaram então um longo trajeto de 13 anos, que passou por Rio Ave, Valencia, FC Porto, Wolverhampton, Tottenham, Al Ittihad e Nottingham Forest.

Até que no início desta época, e de forma amigável, Nuno Espírito Santo e António Dias resolveram separar caminhos. Foi então que José Mourinho, que estava a reformular a equipa técnica, o convidou para ser preparador físico dele no Fenerbahçe, primeiro, e no Benfica, agora.

Este domingo regressa ao local onde tudo começou: no Estádio do Dragão. Não é a primeira vez que o faz, mas é a primeira vez que o faz com a camisola do maior rival.

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