Da "figura maior da cultura portuguesa" à "perda irreparável para a literatura e para a cultura". As reações à morte de António Lobo Antunes - TVI

Da "figura maior da cultura portuguesa" à "perda irreparável para a literatura e para a cultura". As reações à morte de António Lobo Antunes

  • CNN Portugal
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  • 5 mar, 10:36

António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu aos 83 anos

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O primeiro-ministro recordou António Lobo Antunes, que morreu aos 83 anos, como “uma figura maior da cultura portuguesa”, dizendo que o seu legado deve continuar a inquietar e a inspirar todos.

“Presto muito sentida homenagem a António Lobo Antunes - figura maior da cultura portuguesa. O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”, escreveu Luís Montenegro, numa publicação na sua conta oficial na rede social X.

Já o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, assinalou que a morte do escritor constitui “uma perda irreparável para a literatura e para a cultura” portuguesas.

“A morte de António Lobo Antunes constitui uma perda irreparável para a literatura e para a cultura portuguesa e enche-nos a todos de tristeza. Portugal perde uma das sua referências, num momento em que elas tanto são precisas”, afirmou José Luís Carneiro.

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) disse ter sido um privilégio viver no tempo de António Lobo Antunes considerando que o escritor faz parte da rara aristocracia da literatura mundial.

“Tivemos a sorte e o privilégio de viver no tempo de António Lobo Antunes. Tivemos a sorte e o privilégio de ver o fruto da sua obsessão pela escrita. Tivemos a sorte e o privilégio de ver nele o maior interprete do Portugal do nosso tempo: do fim do império, da experiência da guerra, da psicologia tão complexa deste nosso velho país”, salientou Carlos Moedas numa mensagem na sua página na rede social Facebook.

A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, lamentou a morte de António Lobo Antunes, considerando-o um escritor maior e intérprete sensível, que deixa um legado inesquecível.

“É com profundo pesar que lamentamos a morte de António Lobo Antunes, escritor maior de Portugal, intérprete sensível e incomparável da condição humana, um dos nossos autores mais reconhecidos das últimas décadas”, disse a ministra da Cultura numa mensagem divulgada na rede social X.

Na opinião de Margarida Balseiro Lopes, António Lobo Antunes deixa “um legado brilhante e inesquecível”.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, lamentou a morte do escritor, classificando-o como “enorme embaixador da língua portuguesa” numa mensagem oficial na rede social X.

“Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa”, escreveu.

O secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, lamentou a morte de António Lobo Antunes como a perda de “homem com uma humanidade comovente” e sublinhou a importância de olhar para o futuro do seu legado.

“É uma grande perda para Portugal, para a cultura, para a literatura em particular, porque o António Lobo Antunes foi uma das vozes das últimas décadas que mais se distinguiu no modo de contar histórias, no modo como olhou para nós próprios, para a nossa condição de portugueses e retratou momentos muito importantes do nosso passado e presente”, afirmou Alberto Santos, que era presidente da Câmara Municipal de Penafiel quando Lobo Antunes foi o homenageado, em 2012, do festival literário Escritaria.

O secretário de Estado da Cultura salientou que “é um legado que se perde hoje com a sua partida, mas por outro lado também [há] que olhar para aquilo que ele deixou, nomeadamente para todo o seu edifício literário, para aquilo que Portugal e o mundo ganhou com a sua escrita”.

“Eu espero, tenho a certeza, [que] será cada vez mais reconhecido por aqueles que haverão de estudar e de compreender melhor esse trabalho”, acrescentou o governante.

Também o Presidente da República eleito, António José Seguro, recebeu com “enorme tristeza” a notícia da morte de António Lobo Antunes, cuja obra considerou “profundamente marcada pela lucidez” e “exigência moral” para com o país e a condição humana.

“A sua obra, profundamente marcada pela lucidez, pela memória e pela exigência moral com que olhou o país e a condição humana, ocupa um lugar incontornável na nossa cultura. Ao longo de décadas, os seus livros desafiaram leitores, abriram caminhos na literatura e deram à língua portuguesa uma expressão singular de intensidade e verdade”, escreveu Seguro no Instagram.

O presidente da Assembleia da República manifestou profundo pesar pela morte de António Lobo Antunes, considerando que revolucionou a literatura nacional e que deixa uma obra extensa premiada em Portugal e no estrangeiro.

Numa mensagem publicada na página da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco manifesta “profundo pesar pela morte de António Lobo Antunes”.

“Escritor e médico psiquiatra, revolucionou a literatura nacional. Deixa uma obra extensa, premiada em Portugal e no estrangeiro”, escreve o presidente do parlamento.

Dom Quixote compromete-se a trabalhar para promover obra

A editora Dom Quixote lamentou a morte do escritor António Lobo Antunes, aos 83 anos, e reafirmou o seu compromisso com a divulgação e promoção de uma obra “cuja importância ultrapassou fronteiras”.

“Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores”, pode ler-se numa mensagem publicada nas redes sociais da editora de sempre do escritor.

A editora compromete-se “a continuar a trabalhar e a promover a sua obra, cuja importância ultrapassou fronteiras” e “despede-se assim do grande escritor português, o verdadeiro escritor, que dedicou toda a sua vida à literatura, prestando-lhe a devida e merecida homenagem e deixando sentidas condolências à sua família, aos seus amigos e aos seus leitores”.

Gonçalo M. Tavares lembra a “obsessão boa por escrever até ao fim”

O escritor Gonçalo M. Tavares recordou António Lobo Antunes como alguém que “marca completamente a literatura portuguesa” e em quem admira, entre outros, a “obsessão boa por escrever até ao fim”.

“É um dia muito triste, no geral, para a Cultura e para a Literatura”, começou por dizer Gonçalo M. Tavares, em declarações à Lusa, falando de António Lobo Antunes como “um escritor absolutamente importante, absolutamente central, que desde os primeiros livros até aos últimos teve sempre na linguagem - numa espécie de vertigem da linguagem -, o seu centro”.

Para Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes é “um caso extraordinário de alguém que criou uma forma de a língua se exprimir”. “Através de repetições, apanhando muito a fala popular, o ‘deslarga-me’, a conversa de café, apanhando muito as repetições, apanhando tiques de linguagem e retransformando-os num conjunto de vozes infinitas de grande literatura”, justificou.

Além disso, considera que Lobo Antunes “deve ser um dos autores que mais influenciou outros autores”.

“Ele falava de se ler um livro quase como se apanhasse uma gripe, uma doença. Eu acho que muitos escritores, muitos leitores, apanharam o vírus, o seu vírus benigno, o seu vírus bom, da linguagem”, disse, defendendo haver “inúmeros escritores, de diferentes gerações, que se vê que leram António Lobo Antunes”.

Gonçalo M. Tavares recorda-se bem de, em jovem, ter lido livros como “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas” e do impacto que tiveram em si.

O escritor identifica na escrita de Lobo Antunes várias fases, mas “há duas muito essenciais”: a das primeiras obras, que o impactaram “muitíssimo, até porque foram os primeiros”, e a das últimas.

“Estes últimos livros são livros em que ele assume que a linguagem é mesmo o centro daquilo a que podemos chamar romance. E já não está interessado na história, está interessado numa espécie de encantamento da linguagem. E tem livros nesta fase final que acho extraordinários a esse nível”, referiu.

Gonçalo M. Tavares admira também em Lobo Antunes uma obsessão, “que os grandes escritores têm”, com a escrita, “que é uma brincadeira uma pessoa escrever um livro, uma espécie de passatempo”.

“Uma pessoa começa a escrever aos 20, aos 30 e depois continua aos 40, aos 50 e até aos 80. Certamente ele teve uma quantidade de convites extraordinários para ir para administrações, para cargos de super poder, e o que disse na sua prática foi ‘eu quero escrever, preciso de escrever’. E eu admiro muito isso, essa obsessão boa. Obsessão por escrever até ao fim”, explicou.

Gonçalo M. Tavares salienta ainda a importância das crónicas, “que António Lobo Antunes algumas vezes desvalorizava publicamente”.

“Há crónicas absolutamente incríveis. Há crónicas que estão nas melhores crónicas escritas em língua portuguesa, e há crónicas que têm uma densidade e uma intensidade absolutamente afetiva que é definitiva”, considerou.

Além de ter recordado “um dos grandes, nomes da literatura”, Gonçalo M. Tavares lembrou também “uma pessoa que foi, em diferentes momentos, muito generosa”.

“Tenho essa experiência prática da generosidade dele e é bom lembrar isso, porque às vezes há uma imagem do Antóbio Lobo Antunes mais pública que não corresponde a pequenos gestos que ele tinha, mais longe dos holofotes”, disse.

“Em termos literários e humanos é uma perda grande”, reforçou.

 

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