Os livros. Era a única coisa que lhe importava. António Lobo Antunes "gostaria de ser lembrado pelos livros, só pelos livros, queria que os seus livros vivessem eternamente", diz o jornalista João Céu e Silva, autor da obra "Uma longa viagem com António Lobo Antunes" e que teve uma relação muito próxima com o escritor. "Não era uma pessoa fácil ao início, mas depois, passados uns minutos, era um sedutor. Não havia ninguém que ele não conseguisse seduzir com as suas palavras. Ele tinha uma capacidade, que nem todos os escritores têm, que é conseguir expressar-se oralmente como se expressava na escrita. Com a mesma paixão. Vi plateias a ficarem rendidas em diferentes países."
"É a frase mais comum, mas, neste caso, é mesmo verdade: Portugal perdeu hoje um dos mais importantes portugueses", afirma Céu e Silva à CNN Portugal, acrescentando que Lobo Antunes "foi um observador muito especial da realidade nacional, principalmente da realidade das pessoas", revelando nos seus livros como era exímio no "entendimento do ser humano".
O funeral de António Lobo Antunes realiza-se este sábado, informa a Servilusa. As exéquias fúnebres começam às 10:00, no Mosteiro dos Jerónimos - Igreja Santa Maria de Belém, Lisboa, com celebração de missa de corpo presente às 12:00, seguindo o cortejo para o Cemitério de Benfica, em Lisboa. Na sexta-feira, o corpo estará em câmara ardente no mesmo local a partir das 16:00.
O escritor de 83 anos tinha deixado de escrever há algum tempo devido a problemas cognitivos que se agravaram durante a pandemia. O seu último romance, "O Tamanho do Mundo", foi publicado em 2022. Depois disso, ainda foram editados dois livros de crónicas. A editora Dom Quixote anunciou esta quinta-feira que irá publicar em abril um livro inédito de poemas que António Lobo Antunes foi escrevendo ao longo da vida, "ele que sempre lamentou não ter sido poeta”.
Numa nota de pesar publicada no site oficial da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa escreve que Lobo Antunes deixa “uma bibliografia vasta, visceral, sofisticada em termos narrativos, atenta ao quotidiano, e muito tributária de experiências como a guerra e a prática clínica da psiquiatria”, afirmando que “ninguém terá sido mais imitado pelas gerações seguintes”. “Seu leitor, admirador e amigo há décadas, pude em 2022 atribuir-lhe as insígnias da Grã-Cruz da Ordem de Camões, com a certeza de que poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país territorialmente pequeno. Vou agora depositar junto dele o Grande-Colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa”, acrescenta o chefe de Estado.
O Conselho de Ministros presidido pelo Presidente da República aprovou esta manhã a proposta do Governo de luto nacional no dia 7 de março, sábado.
Já António José Seguro, que na próxima semana toma posse como Presidente da República, publicou uma nota afirmando que "a sua obra, profundamente marcada pela lucidez, pela memória e pela exigência moral com que olhou o país e a condição humana, ocupa um lugar incontornável na nossa cultura". "Ao longo de décadas, os seus livros desafiaram leitores, abriram caminhos na literatura e deram à língua portuguesa uma expressão singular de intensidade e verdade", acrescentou, sublinhando que António Lobo Antunes "foi um escritor de rara coragem intelectual, capaz de transformar a experiência individual e coletiva em literatura de grande fôlego".
O adeus ao "último guerrilheiro da literatura portuguesa"
"Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever”, dizia Lobo Antunes. "Escrevo à mão. Também não tenho computador. Começo às 06:30 da manhã, depois escrevo até às 13:00, depois almoço, recomeço às 14:00 até às 20:00 e à noite mais um bocadinho. Já vou para a cama a trocar as pernas. E sempre tive a sensação que, cada vez mais, um livro é um organismo vivo, que nos escapa. Não tenho nenhum plano escrito nunca", contava numa entrevista à jornalista Ana Peixoto, da TVI (do mesmo grupo do que a CNN Portugal).
"Era capaz de passar um dia inteiro só para escrever um parágrafo", recorda Céu e Silva. Definia-se como "caçador de palavras". Foi médico psiquiatra e escrevia romances para combater a depressão que afirmava existir em todas as pessoas. A sua obra fala da solidão, da morte, do amor, da loucura e, invariavelmente, da guerra colonial, para a qual foi mobilizado em 1970. Em 2007, quando ganhou o Prémio Camões, a lista de distinções já era longa e incluía o Prémio União Latina pelo conjunto da obra (2004), o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o prémio o Melhor Livro Estrangeiro publicado em França ("Manual dos Inquisidores") e o reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.
“É um dia muito triste, no geral, para a Cultura e para a Literatura”, começou por dizer o escritor Gonçalo M. Tavares, em declarações à Lusa, falando de António Lobo Antunes como “um escritor absolutamente importante, absolutamente central, que desde os primeiros livros até aos últimos teve sempre na linguagem – numa espécie de vertigem da linguagem - o seu centro”. É “um caso extraordinário de alguém que criou uma forma de a língua se exprimir”. “Através de repetições, apanhando muito a fala popular, o ‘deslarga-me’, a conversa de café, apanhando muito as repetições, apanhando tiques de linguagem e retransformando-os num conjunto de vozes infinitas de grande literatura”, justificou.
“Não houve nenhum escritor contemporâneo entre nós que tenha tido a força inovadora que ele teve. Conseguiu fazer o que se pensava impossível: juntar o modelo do romance psicológico do início do século XX com a narrativa histórica de um país”, afirmou a escritora Lídia Jorge, sublinhando que Lobo Antunes “criou uma poética de interioridade que não é repetível, uma voz interior nos seus livros, densos e difíceis, que deixam uma marca única e criativa que não precisa de um Prémio Nobel”.
Se tivesse de aconselhar um livro de Lobo Antunes, o escritor Afonso Reis Cabral teria muita dificuldade em escolher, porque gosta de praticamente todos, mas talvez aconselhasse "A Morte de Carlos Gardel". "É um dos que eu acho mais extraordinários. E também não desvalorizo as crónicas, ao contrário do próprio Lobo Antunes, ele achava que eram Lobo Antunes light. Mas eu não desvalorizo nada disso, porque as crónicas são belíssimas. O conjunto de crónicas é certamente um monumento literário. E conseguir a leveza e profundidade que ele conseguia nas crónicas é difícil, é de mestre."
Na hora da morte, é comum surgirem frases de apreço e agradecimento, mas não são muitos os escritores que chegam às manchetes dos jornais nacionais e que são notícia lá fora. Em França, o Le Figaro noticiou a morte do "grande romancista português" António Lobo Antunes e no Le Monde a jornalista Ariane Singer elogiou o “trabalhador incansável, autor prolífico com uma imaginação fértil e fervoroso defensor da liberdade de expressão”, “conhecido pela complexidade e exigência dos seus livros”.
"Tudo na biografia de António Lobo Antunes foi maiúsculo, ciclópico, colossal. Também o é a sua morte”, escreve o El País, que chama a Lobo Antunes o "colosso da literatura portuguesa": Tereza Constenla descreve " o vazio deixado por um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea" e afirma que "nos seus 44 livros de romances e crónicas, retratou o Portugal contemporâneo como ninguém, com todas as contradições e traumas que a ditadura e a guerra colonial deixaram na sua geração". No El Mundo, Lobo Antunes é descrito como "o último guerrilheiro da literatura portuguesa", na Folha de São Paulo é "icónico".
As homenagens sucederam-se ao longo do dia, e não só do meio literário. "Desta vez o 'perdemos um dos maiores' não é lugar comum", escreveu Rui Tavares, porta-voz do partido Livre, nas redes sociais. "Em António Lobo Antunes tínhamos um escritor que nos lia por dentro, individual e coletivamente, enquanto o líamos a ele." A atriz Maria Rueff recordou o espetáculo "António e Maria", que protagonizou em 2015, a partir da obra de Lobo Antunes, e agradeceu-lhe: "Por toda a bondade que teve comigo que jamais esquecerei, mas também pela inteligência do seu génio literário com que tratou a humanidade e Portugal."
O encenador Nuno Cardoso, que em 2024 encenou e adaptou para palco a obra “Fado Alexandrino”, considera Lobo Antunes “o maior escritor português contemporâneo”: “Foi um escritor que bateu de frente com esta espécie de véu de boas maneiras, de silêncio, de recato podre que nós temos enquanto povo”, justifica em declarações à Lusa.
Também o ator Eduardo Madeira quis assinalar a partida do "maior": "Uma vez encontrei o António Lobo Antunes na Feira do Livro. O meu escritor favorito contemporâneo. Eu tinha-o imitado precisamente no programa 'Os Contemporâneos', da RTP. Nunca pensei que ele tivesse visto. Tirámos uma foto juntos e falámos um pouco. E do nada ele diz: 'você já me imitou, não foi? E eu respondi, meio envergonhado: sim. E ele disse: não estava nada mau!' Morreu o Maior. Tanto quanto pode morrer uma pessoa com esta vida e obra."
Na entrevista à TVI, António Lobo Antunes falou dos pais, dos irmãos, dos amigos, da doença. Falou pouco dos livros, concluiu no final. "Livros é como o amor. A gente faz, não fala." E também não falou do sucesso. Apenas isto: "Agora tenho tudo. Não há mais nada que me possas dar. Já recebi tudo. Mas de quem, quando eu morrer, vou ter saudades, é das pessoas de quem gosto e que cá ficam. Os outros vou encontrá-los. Estes lá irão ter. Mas custa-me que demorem muito tempo a chegar. Olhe, aqui tem um bom final."