Arábia Saudita diz que os visitantes LGBTQ+ são bem-vindos - TVI

Arábia Saudita diz que os visitantes LGBTQ+ são bem-vindos

  • CNN
  • Julia Buckley
  • 13 mai 2023, 16:00
 AlUla é um dos destinos que estão a ser promovidos pela Arábia Saudita para atrair turistas estrangeiros. Foto: Alex Broadway/Velo/Getty Images

A atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo é uma ofensa na Arábia Saudita, segundo a Human Rights Watch

À medida que a Arábia Saudita prossegue o seu esforço para atrair turistas, as autoridades do país parecem estar a tentar chegar a uma secção particularmente lucrativa do mercado: os viajantes LGBTQ. 

A página da Autoridade Saudita do Turismo (STA) parece ter atualizado a sua secção de perguntas e respostas para afirmar que os visitantes homossexuais são bem-vindos ao reino. 

"Todos são bem-vindos a visitar a Arábia Saudita e não é pedido aos visitantes que revelem os seus dados pessoais", é a resposta da página à pergunta: "Os visitantes LGBT são bem-vindos à Arábia Saudita?" 

Não se sabe exatamente quando é que esta página foi atualizada. Um porta-voz do turismo diz que a política já estava em vigor, mas uma versão arquivada da página a 14 de Março de 2023 e antes não tinha a pergunta e a resposta na página. 

A atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo é uma ofensa na Arábia Saudita, segundo a Human Rights Watch. 

De acordo com a Human Dignity Trust, que advoga pelos direitos das pessoas LGBT em todo o mundo, as pessoas trans também podem ser processadas na Arábia Saudita, há "provas substanciais de que a lei está a ser aplicada" e "relatos consistentes de discriminação e violência" contra pessoas LGBTQ. 

Os viajantes LGBTQ+ são um mercado lucrativo, de acordo com Darren Burn, diretor executivo da Out Of Office, um serviço de planeamento de viagens de luxo para a comunidade, e da Travel Gay, a maior plataforma de viagens LGBTQ+ do mundo. 

"Estudos mostram que gastam mais dinheiro num destino do que os casais heterossexuais e tendem a viajar mais vezes por ano", disse à CNN. 

"É um grupo demográfico muito interessante e lucrativo, e os países estão a investir grandes receitas para o atrair." 

Se os viajantes LGBTQ se sentirão confortáveis a viajar para a Arábia Saudita, no entanto, é outra questão. Burn diz que destinos como as Maldivas e o Dubai, onde a homossexualidade é considerada crime, são populares, mas sem mais garantias por parte das autoridades, a Arábia Saudita poderá ser mais difícil de vender. 

"É muito vago e não oferece as garantias que me fariam sentir capaz de enviar os nossos clientes em segurança para o destino, mas qualquer coisa na página sobre viajantes LGBT é um bom ponto de partida". 

"Não me lembro de nenhum outro organismo de turismo do Médio Oriente que os tenha sequer mencionado, exceto o Catar no período que antecedeu o Campeonato do Mundo, e mesmo esse foi vago, dizendo que todos eram bem-vindos. " 

"Mas a minha preocupação é saber qual é a realidade do destino. Será que estão a dizer que um casal do mesmo sexo pode fazer o check-in num hotel e conseguir uma cama de casal sem qualquer problema? O meu palpite é que não é essa a realidade." 

"O meu amigo sugeriu-me um telemóvel novo"

Um viajante gay que visitou a Arábia Saudita numa viagem de trabalho em Outubro de 2022 – antes da atualização do site – disse à CNN que se sentiu "no armário" durante a sua estadia. 

O viajante britânico – que não quis ser identificado – passou algum tempo em AlUla, um dos destinos para turistas na Arábia Saudita. 

"Durante cerca de uma semana correu tudo bem, mas depois disso apercebi-me de repente que tinha voltado a viver uma vida no armário e a não ser eu próprio. Mais por medo do que poderia acontecer – o desconhecido – do que por qualquer coisa específica que tenha acontecido", disse. 

"Enviaram-me um e-mail [da empresa para a qual trabalhava] a dizer o que devia fazer. Basicamente, disseram-me para apagar do meu telemóvel tudo o que fosse remotamente relacionado com a comunidade LGBTQ+: todas as fotografias, aplicações, jornais e revistas. O meu amigo egípcio sugeriu que eu comprasse um telemóvel novo e limpo." 

"Contei aos colegas mais próximos, mas não falei sobre ser homossexual ou sobre a minha experiência passada. Guardei o assunto para mim e, de repente, apercebi-me de que não era capaz de falar sobre o que normalmente falaria, e não é assim que quero viver. Na prática, toda a gente estava muito descontraída, mas a lei é a lei". 

No entanto, acrescentou que uma "revelação" da sua viagem foi "o quão amigável e acolhedor é o povo saudita". 

"Estão realmente abertos à mudança de atitudes, mas não estiveram em contacto com o mundo ocidental durante a sua vida. Se não conhecermos pessoas [de outras culturas] e não falarmos sobre as diferenças, não há forma de aprender com elas. " 

"Descobri que o que a lei e as autoridades dizem é muito diferente da forma como os habitantes locais interagem connosco. " 

"Se fosse para lá e fosse abertamente gay, ficaria bastante preocupado – não me sentiria confortável em ir lá com um parceiro – mas é um país que está a mudar muito rapidamente." 

Depois do Dubai e do Catar 

A Arábia Saudita está a concentrar-se na expansão do seu sector turístico, apelando aos fãs da arqueologia em locais como AlUla, onde há ruínas que permaneceram intocadas durante quase 2000 anos, e criando novas cidades inteiras para atrair os visitantes. 

Richard Quest, da CNN, que visitou o país em Setembro de 2022, escreveu: "já vi países mudarem antes, mas acho que nunca vi nada parecido com a mudança que está a ocorrer na Arábia Saudita. A mudança da Arábia Saudita é deliberada, profunda e dramática". No entanto, também assinalou as suas "contradições": após a sua visita, 81 pessoas foram executadas num único dia. 

A investigadora de direitos humanos Nora Noralla disse à CNN que o reino está a seguir o Catar e o Dubai na sua tentativa de atrair viajantes LGBTQ+. Mas alertou para o facto de poder não ser nas condições em que viajantes esperam que seja. 

"No Dubai há muitos influenciadores homossexuais e, desde que se compreenda o contexto da zona em que se está, se respeite a cultura tradicional e não se mostre a sua homossexualidade de forma alguma, não há problema", disse. 

"Isso exige que se passe como cisgénero. Se apareceres e fores não-binário, ou homem com maquilhagem, ou obviamente trans, e vieres para a região, ser-te-á negada a entrada. Eu não diria que as pessoas LGBTQ+ são bem-vindas – eles dizem que os casais do mesmo sexo são bem-vindos, e isso é completamente diferente". 

Também alertou que o que vale para os "turistas ricos" não vale para os outros. "Os residentes queer sabem que limites podem ser ultrapassados, e tudo depende do seu contexto económico e social", disse. "Têm noção dos riscos deste tipo de atividade e sabem como o fazer de forma discreta. Esta [a nova medida] é basicamente para os turistas ocidentais. " 

"Estão a tentar copiar o modelo do Dubai para poderem ficar com algum do dinheiro deles. Há muita competição [pelo dinheiro]. Se fores um ocidental cis ou gay, és bem-vindo. Se fores trans e passares como cisgénero, és bem-vindo. Mas se houver qualquer coisa que mostre remotamente a teu queerness, não és. E acho que se alguém passar dos limites, eles vão agir rapidamente." 

Apesar do seu cepticismo, Darren Burn pensa que a Arábia Saudita tem potencial para ser um destino gay-friendly. 

"Gostaríamos de ter uma conversa com o conselho de turismo e o governo para encontrar uma forma de os viajantes LGBTQ+ poderem realmente viajar de forma segura, de os ver a investir dinheiro na promoção das comunidades LGBTQ+ e a fazer mudanças nos direitos LGBTQ+ a nível local para tornar a Arábia Saudita um destino autêntico e apelativo. " 

"Todos sabemos que a razão pela qual os destinos estão a receber turistas agora é porque pensam que esse é a sua futura fonte de receitas, mas isso é bom, porque pode levar a mudanças na lei da igualdade se isso for bom para o negócio~." 

As viagens podem abrir as mentes de ambos os lados. 

"Sem viagens e sem turistas a visitar os destinos, as mentalidades nunca mudariam – desde que o possam fazer em segurança, os viajantes LGBTQ+ podem quebrar barreiras", afirmou. 

"Os destinos mudam, mas acho que não vamos enviar clientes tão cedo até recebermos garantias de que estarão seguros, serão bem-vindos e poderão fazer o check-in." 

Um porta-voz da STA disse num comunicado: "todos são bem-vindos a visitar a Arábia Saudita, desde que sigam e respeitem a nossa cultura, tradições e leis, tal como acontece quando se visita qualquer outro país do mundo". 

"Tal como outros governos, não fazemos perguntas pessoais aos visitantes e respeitamos o direito à privacidade." 

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