O Conselho de Arbitragem (CA) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) realizou, esta quarta-feira, uma conferência de imprensa para fazer um balanço do desempenho dos árbitros nas dez primeiras jornadas dos campeonatos profissionais.
Esta ação já estava prevista há muito tempo, mas ganhou ainda mais peso devido ao atual contexto do futebol português, marcado por muitas queixas à arbitragem.
O Diretor Técnico para a Arbitragem, Duarte Gomes, quis fazer um «ponto de situação» e explicou o dia a dia dos árbitros.
«Os árbitros do futebol profissional fazem quatro treinos semanais, segunda-feira, quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira. À terça-feira é opcional. Têm três sessões em sala, técnicas, teóricas e presenciais todas as manhãs de segunda-feira, quarta-feira e quinta-feira. Fazem ainda duas sessões online de trabalho técnico às quartas e quintas-feiras, às 21h30», detalhou.
«A ideia desta carga de trabalho é tentarmos evitar erros de arbitragem. Queremos trabalhar mais e melhor. Percebemos nestas 10 primeiras jornadas que há, muitas vezes, desvios que são expectáveis em relação a algumas arbitragens, em função das recomendações e das próprias leis de jogo. O que fazemos a partir do momento em que a época começa é afinar essas indicações através deste momentos, em campo, sala e online. E com muita proximidade.»
Duarte Gomes lembrou o papel pedagógico dos obervadores que acompanham «o processo de decisão dos árbitros via televisão» e reconheceu que as equipas de arbitragem têm errado ao longo destas jornadas.
«Não há trabalhos perfeitos e sabemos com toda a humildade que na arbitragem não há Maradonas. Estamos em constante aprendizagem num processo que agora iniciamos. Terá momentos de correção e maior e menor visibilidade», assegurou.
«A taxa de acerto foi de 97 por cento»
O Diretor Técnico para a Arbitragem apresentou alguns dados estatísticos para destacar a grande percentagem de acerto nas decisões dos árbitros.
«Nos 90 jogos da Liga, tivemos 40 intervenções e, dessas, 19 foram sobre pontapés de penálti, 16 em relação à legalidade dos golos e cinco para cartões vermelhos. Destas 40 intervenções, 24 foram factuais. Foram dadas diretamente ao árbitro, sem ele ir ao ecrã, como nos casos de fora de jogo para anular ou validar golos. As outras 16 implicaram a revisão em campo feita pelo árbitro. Foram acatadas 13 e em três os árbitros consideraram que a sua decisão inicial estava correta. O tempo médis de revisão na sala no ecrã foi de 1m35s por lance e de um 1m05s nas decisões factuais, como o fora de jogo. Está alinhado com os tempos registados no ano passado por esta altura. Analisámos, em termos de videoarbitragem, 1308 clipes, desde I e II Liga, Liga BPI e Taça da Liga. A taxa de acerto registada foi de 97 por cento, em relação ao parecer técnico e avaliação dada pelos observadores, que são independentes deste processo de análise.»
Duarte Gomes mostrou-se, ainda, insatisfeito com os 53m09s de tempo útil de jogo, mas alertou que «os árbitros estão a dar mais tempo de compensação». Por fim, fez mais uma reflexão sobre as decisões erradas na arbitragem.
«Porque é que os árbitros erram? Erram porque têm uma desconcentração pontual, perdendo o foco num momento exato; porque têm o foco no local errado, muitas vezes; erram porque estão, muitas vezes, mal posicionados; erram porque o lance é muito difícil, cinzento, de fronteira; erram por inexperiência; erram por incompetência momentânea; mas também erram por que são ludibriados, pela simulação. Temos de trabalhar, trabalhar, trabalhar. Treinar mais e melhor, detetar os erros, perceber porque aconteceu o erro. Mais do que aspetos técnicos, isto toca em aspetos emocionais, psicológicos, de personalidade. Isto também se trabalha. Isto é um processo. Se não fosse um processo, não havia erros na fantástica Liga inglesa. Isto é um mundo extremamente sensível, com muitas variáveis em causa», vincou.
«Não estamos imunes ao ruído exterior, sabemos que ele é mais corrosivo neste momento. Não nos escondemos dele. Aproveitamos o ruído construtivo como momentos de aprendizagem. Aprendemos com a crítica construtiva e, neste período, ouvimos coisas que fazem sentido. Infelizmente, na maioria, não [fazem]. Sabemos que é uma classe escrutinada, sabemos que são as regras do jogo e convivemos bem com isso, tal como os árbitros, que estão habituados à pressão e a lidar com algum aparato excessivo, que acontece tantas vezes de forma estratégica. Não vamos vacilar em fazer o nosso caminho, independentemente das tempestades que venham», concluiu.