Luciano Gonçalves: «Jarras são para flores» - TVI

Luciano Gonçalves: «Jarras são para flores»

Conselho de Arbitragem garante que as penalizações aos árbitros são atos de gestão, «como qualquer clube faz com os seus jogadores»

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O presidente do Conselho de Arbitragem (CA) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Luciano Gonçalves, recusou rotular as penalizações aos árbitros de «jarras», durante o balanço das primeiras dez jornadas, na Cidade do Futebol.

«Com este CA, não vão existir jarras. Jarras são para flores. O que este CA faz é aquilo que qualquer clube faz com os seus jogadores, fazem gestão dos seus jogadores. Jamais faremos jarras porque os jogos correm bem ou mal, ou pela pressão externa ou outro ruído. Sempre com o princípio de responsabilização do erro. Para nós é muito importante que os árbitros sejam defendidos, que estejam tranquilos, valorizando a competência deles», vincou na primeira intervenção.

«Todos sabíamos que ia ser desafiante. Nenhum de nós está surpreendido por aquilo que estamos a apanhar. Nestas primeiras dez jornadas, se calhar estamos mais surpreendidos com o ambiente que à 10.ª jornada – começou muito mais cedo - começou a ser criado. Todos sabemos que isso não tem só a ver com os erros dos árbitros. Estamos cá para assumir os erros dos árbitros, para trabalhar diariamente, para que haja uma taxa de acerto muito acima destes 97 por cento. Mas, infelizmente, teimamos em não valorizar aquilo que é bem feito. Valorizamos apenas aquilo que, por vezes, é mais adequado. Mas, da nossa parte, iremos continuar a assumir a nossa responsabilidade, sempre de forma tranquila e transparente. Estamos aqui para dar a cara», garantiu.

Também Duarte Gomes, o Diretor Técnico para a Arbitragem, quando questionado pelos jornalistas sobre eventuais sanções aos árbitros, reconheceu que não nomear um árbitro para um jogo, muitas vezes, serve para o proteger.

«Acho que ficou muito claro que não apenas falamos em jarras, como não expomos a ninguém que vamos pôr árbitros na jarra. Os primeiros a saber quando vão ser responsabilizados – através da não nomeação ou de outra forma – são os próprios árbitros, não a imprensa nem os clubes. Qualquer outra coisa que ouçam, não foi pela via oficial. Os próprios árbitros, muitas vezes, sentem que depois de um jogo mal conseguido, com erros e com visibilidade. Regra geral não é o erro em si, é o timing, o impacto desportivo e a visibilidade do erro. Um erro num jogo de 5-0, tem muito menos impacto do que um erro num jogo de resultado incerto até ao último minuto. Sobretudo, em três ou quatro jogos por semana. Temos essa noção. Muitas vezes, a gestão dos desempenhos nem é para castigar o árbitro, mas para protegê-lo de nova exposição. Um mau jogo tem consequências até familiares para os árbitros, e protegê-lo de estar exposto num estádio é o mais sensato. Mas, obviamente, é importante que se sintam responsabilizados. (…) Quando erramos, temos de assumir as consequências. Para os árbitros não é só a não nomeação. É o fator económico, porque ganham prémios de jogo significativos, é a autoestima que fica completamente derrotada e o processo classificativo. Quando acharem que os árbitros não são responsabilizados, estão enganados, acreditem. São... e muito.»

«Não podemos ter um ou dois árbitros para dérbis ou clássicos»

O presidente do CA da FPF assumiu algumas lacunas na arbitragem portuguesa, mas alertou para a inexperiência dos árbitros.

«Temos muita confiança neste quadro de árbitros. 40 por cento dos nossos árbitros têm 3 anos ou menos na Liga. 25 por cento têm dois anos ou menos. 67 por cento dos nossos VAR’s têm menos de 50 jogos no desempenho da função de VAR. 30 por cento dos VAR’s iniciaram este ano esta função. Alargamos o leque de árbitros nos principais jogos. A partir do momento em que estão no futebol profissional, estão aptos para estar em qualquer estádio. Não podemos ter um ou dois árbitros para dérbis ou clássicos. Vamos trabalhar para que existam cada vez mais», vincou.

Luciano Gonçalves revelou ainda que, em janeiro, o CA vai apresentar o Plano Nacional de Arbitragem.

«É um documento muito importante, irá ser a nossa Bíblia para os próximos 12 anos, onde irá ficar bem claro o que queremos da base ao topo da arbitragem nacional para atingirmos as métricas que pretendemos. Temos de triplicar o número de árbitros, mesmo sabendo que isso é muito difícil. E, para isso, existem uma série de fatores que têm de se conjugar: criar condições para que os jovens queiram dedicar-se a esta atividade, temos de nos respeitar e respeitar o futebol, sublinhou.

Luciano Gonçalves garantiu que não foi ponderado recrutar árbitros estrangeiros e confessou que «o ambiente não ajuda» às decisões das equipas de arbitragem. Por isso, entende que os regulamentos disciplinares devem ser «mais punitivos».

«Todos queremos que as coisas não aconteçam. Se essa é a via para o fazermos, tem de ser esse o caminho. A própria APAF, que representa os seus árbitros, irá apresentar à Liga uma sugestão de alteração aos regulamentos disciplinares. É esperar que os clubes estejam sensíveis a isso, que a própria Federação aceite as alterações. O que queremos é que estes episódios não aconteçam. Terá de existir uma alteração a nível de regulamentos para serem mais punitivos», concluiu.

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