Perante o risco de limpeza étnica, os 120 mil arménios do Nagorno-Karabakh já estão a abandonar a região - TVI

Perante o risco de limpeza étnica, os 120 mil arménios do Nagorno-Karabakh já estão a abandonar a região

"O nosso povo não quer viver como parte do Azerbaijão. 99.9% preferem deixar as nossas terras históricas", disse David Babayan, conselheiro da presidência da autoproclamada República de Artsakh

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Os 120 mil arménios que habitam o Nagorno-Karabakh já começaram a abandonar a região após a ofensiva do Azerbaijão, confirmou um responsável do governo da autoproclamada República de Artsakh, que administra o território.

"O nosso povo não quer viver como parte do Azerbaijão. 99.9% preferem deixar as nossas terras históricas", disse David Babayan, conselheiro do presidente Samvel Shahramanyan, à agência Reuters.

Os arménios começaram a habitar a região desde, pelo menos, o século II a.C. A saída destas 120 mil pessoas termina, assim, com milhares de anos de ocupação do território por parte deste povo.

"O destino do nosso pobre povo ficará na História como uma desgraça e uma vergonha para o povo arménio e para todo o mundo civilizado. Os responsáveis pelo nosso destino terão um dia de responder perante Deus pelos seus pecados”, completou Babayan.

Segundo o Ministério da Defesa da Rússia, as forças de manutenção de paz de Moscovo já escoltaram 311 pessoas para a Arménia.

Este fim de semana, o primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, fez um discurso à nação, no qual alerta que os arménios do Nagorno-Karabakh “ainda correm o risco de sofrer uma limpeza étnica”.

"Se não forem criadas condições adequadas para que os arménios do Nagorno-Karabakh possam viver nas suas casas e se não existirem mecanismos de proteção eficazes contra a limpeza étnica, é cada vez mais provável que os arménios do Nagorno-Karabakh vejam o exílio da sua pátria como a única forma de salvar as suas vidas e a sua identidade", disse Pashinyan, citado pela Reuters.

O Azerbaijão, por seu turno, garante que quer integrar os arménios do Nagorno-Karabakh no país, prometendo tratá-los “como cidadãos iguais”.

“Quero reiterar que o Azerbaijão está determinado a reintegrar os habitantes arménios da região de Karabakh, no Azerbaijão, como cidadãos iguais”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jeyhun Bayramov, na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. “A Constituição, a legislação nacional do Azerbaijão e os compromissos internacionais que assumimos são uma base sólida para este objetivo.”

O Azerbaijão lançou na terça-feira, dia 19 de setembro, o que designa de “operação antiterrorista” contra a região do Nagorno-Karabakh, onde residem cerca de 120 mil arménios.

O Ministério da Defesa do Azerbaijão exigiu a “total e incondicional” retirada das tropas arménias da região, reconhecida internacionalmente como território azeri, a qual considera ser a “única forma de garantir a paz e a estabilidade na região”.

Esta operação foi desencadeada após seis azeris – quatro polícias e dois civis – terem sido mortos com a explosão de minas numa zona da região controlada por Baku.

De acordo com o último balanço da provedoria dos direitos humanos da República de Artsakh, a ofensiva já provocou mais de 200 mortos e pelo menos 400 feridos.

Contexto

O Nagorno-Karabakh é há muito um foco de tensão entre arménios e azeris. Nos tempos contemporâneos, a região sempre foi ocupada na sua maioria por arménios. Apesar disso, com a União Soviética, a administração do território foi entregue à República Socialista Soviética do Azerbaijão.

À medida que a União Soviética se desintegrava, a situação foi ficando cada vez mais instável.  A Primeira Guerra do Nagorno-Karabakh, que começou em 1988 e durou cerca de seis anos, teve um desfecho favorável para os arménios, com grande parte da região a passar a estar sob o seu controlo.

No total, 16% do território internacionalmente reconhecido como azeri passou a estar sob controlo dos arménios, mas não foi integrado no território da Arménia: nascia, então, a autoproclamada República de Artsakh, que engloba a região do Nagorno-Karabakh e mais alguns territórios a oeste e sul, e que nunca obteve reconhecimento oficial de nenhum país.

Salvo as ocasionais disputas localizadas, o status quo manteve-se inalterado até setembro de 2020. Enquanto o mundo se deparava com uma pandemia, o Azerbaijão lançou uma ofensiva a Artsakh, espoletando assim o início da Segunda Guerra do Nagorno-Karabakh.

Ao contrário do primeiro conflito, o desfecho foi favorável aos azeris. Para além do sucesso no terreno, o país liderado por Ilham Aliyev obteve uma grande vitória na mesa das negociações.

Sob os termos do acordo de cessar-fogo, assinado a 9 de novembro de 2020 e mediado por Vladimir Putin, os arménios foram obrigados a ceder o controlo de vários distritos: Agdam, a leste, e Kalbajar e Lachin, a oeste. Com a perda deste último, um desfecho temido: o território de Artsakh passa a estar separado da Arménia e totalmente rodeado pelas tropas azeris.

O acordo, porém, dava alguma esperança aos arménios, com o estabelecimento de um corredor, o corredor de Lachin, sob controlo de forças russas de manutenção de paz, para assegurar a continuidade do tráfego de bens entre a Arménia e Artsakh. Mas não durou muito.

Em dezembro de 2022, alegados ativistas ambientais azeris, às ordens de Baku, bloquearam o corredor, protestando contra a exploração ilegal de minérios na região, numa flagrante violação do acordo assinado dois anos antes. Durante alguns meses, a ajuda humanitária ainda foi entrando em Artsakh, mas, em abril, os azeris bloquearam totalmente a estrada; os arménios da região deixaram de ter acesso a bens essenciais como comida, eletricidade ou gás natural.

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