“Não tinha ideia de que era assim tão mau”. As pistas que ativistas ucranianos seguiram para denunciar a propaganda russa na Universidade de Coimbra - TVI

“Não tinha ideia de que era assim tão mau”. As pistas que ativistas ucranianos seguiram para denunciar a propaganda russa na Universidade de Coimbra

Inauguração do Centro de Estudos Russos

Os ucranianos Olga e Viacheslav uniram-se para escrever um artigo e denunciar a divulgação de propaganda russa na Universidade de Coimbra. Em entrevista à CNN Portugal, explicam como alertaram várias vezes a instituição para a permanência de ligações a uma fundação criada por Putin, quase um ano depois de a faculdade ter garantido que já nenhum vínculo existia

No vídeo, publicado a 22 de junho no canal de Youtube do Centro de Estudos Russos da Universidade de Coimbra (UC) aparecem vários estudantes a exibir cartazes com o seu nome e o país onde nasceram. “Uns escrevem que são de Portugal, outros de Espanha, da Venezuela ou do Brasil, mas nenhum diz que é da Ucrânia, dizem que são da República Popular de Donetsk” - um estado separatista anexado pela Rússia.

Este video foi segundo adiantaram dois ativistas ucranianos, uma das pistas que os ajudou a perceber e a denunciar a propaganda russa na Uiversidade de Coimbra. Em entrevista à CNN Portugal, Olga e Viacheslav garantem que o video, entre outros elementos, revelam o quão “alarmante” estava a ser a propagação da narrativa do Kremlin na instituição.

“Na Ucrânia, a República Popular de Donetsk é reconhecida como uma organização terrorista e o meu melhor amigo passou em Donetsk um ano da sua vida como refém, com hipóteses reais de morrer, e ferido, de forma física e emocional. E na Universidade, vejo-a ser reconhecida como um país válido”, defende Viacheslav Medvediev que, juntamente com Olga Filipova, publicaram um artigo que denuncia as ligações do Centro de Estudo Russos e do seu diretor, Vladimir Pliassov, ao Kremlin e à fundação Russkiy Mir, criada por Putin para divulgar a cultura e literatura russa - sancionada pelo Parlamento europeu por ser um veículo de propaganda e desinformação.

 

Frame do vídeo captado pelos dois ativistas ucranianos. Foi carregado no canal de youtube do “CER Coimbra” em Junho de 2022

 

Neste artigo de opinião, publicado no Jornal Proença e no Observador, descrevem também como Pliassov, que até então lecionava várias disciplinas na Universidade - incluindo Cultura Russa - partilhou com alunos fitas de S. Jorge, um símbolo utilizado pelas tropas e manifestantes pró-russos desde a invasão da Crimeia, e tem publicado textos académicos em que se refere ao antigo estado eslavo de Rus, que tinha como capital Kiev, como “Antiga Rússia” e apelida a língua deste estado - que deu origem ao russo, bielorrusso e ucraniano, como “língua russa antiga”. “Assim distorce fatos históricos, levando a que os estudantes fiquem com a ideia de que a Ucrânia como tal é nunca existiu, foi sempre Rússia e terra russa”, escreveram os ativistas. 

Após a publicação deste texto, o reitor da Universidade de Coimbra despediu Vladimir Pliassov, justificando que as atividades letivas do Centro de Estudos Russos “estariam a extravasar o âmbito” definido - o ensino de língua e cultura russa . Mais tarde, um comunicado foi tornado público salientando que a instituição estava “profundamente comprometida com os valores europeus e totalmente solidária com a Ucrânia no contexto da agressão russa".

Paralelamente, Vladimir Pliassov, numa primeira reação ao Jornal Público, fez questão de desmentir todas as acusações. “Já não temos nenhum contacto com a Fundação Russkyi Mir”, afirmou ao Público, “o que fazem na política é outra coisa, eu ensino literatura”, respondeu. A CNN Portugal procurou obter mais informações junto de Pliassov, mas até ao momento não foi possível.

 

Olga Filpova (à esquerda) e Viacheslav Medvediev (à direita) denunciaram a existência de propaganda russa na Universidade de Coimbra num artigo de opinião/ D.R

 

Para Olga, 42 anos, e Viacheslav, 40 anos, a ideia de expor a “propaganda russa na Universidade de Coimbra” surgiu após a CNN Portugal ter publicado em maio do ano passado um conjunto de artigos sobre as ligações - e o consequente afastamento - da fundação Russkyi Mir às Universidades de Coimbra e do Minho. “Sinto muito amor pela Universidade de Coimbra, porque estudei cá durante vários anos e foi muito ofensivo para mim ver que a minha universidade estava a servir de plataforma para estas coisas estarem a acontecer”, afirma Olga, explicando que quando regressou a Portugal, no ano passado, depois de nove anos na Alemanha a trabalhar, “não quis acreditar” no que viu ao entrar de novo na instituição. 

“Era surreal, porque na faculdade de um lado tínhamos uma parede de apoio à Ucrânia, com bandeiras e, na parede oposta, tínhamos alusões ao Kremlin e ao estado russo e a toda a agressão que vem dele”, explica a ucraniana que trabalha como engenheira de Software. “Não tinha ideia que era assim tão mau. Eu sabia que a universidade há algum tempo tinha assinado um contrato com a Russkyi Mir, mas enquanto estive em Berlim, tinha a certeza de que - como garantiu a universidade no ano passado - essas ligações já não exisitam, especialmente depois da invasão de larga escala lançada contra a Ucrânia”, explica, concretizando que foi nessa altura que contactou Viacheslav e os dois decidiram começar a recolher provas.

Ainda que a Universidade tenha garantido oficialmente que a sua ligação à fundação criada por Vladimir Putin em 2007 e hoje em dia liderada por Vyacheslav Nikonov, um oligarca russo e membro da Douma, que foi sancionado pelos EUA e pelo Reino Unido pelo seu papel na invasão militar da Ucrânia, estes ativistas fotografaram vários elementos da fundação nos corredores da faculdade. “Em particular, a bandeira russa e o logótipo da Fundação Russkiy Mir estiveram presentes em novos materiais, por exemplo, no programa do Centro de Estudos Russos durante este ano académico”.

Após verificarem isto, os dois ativistas escreveram vários e-mails, no final de 2022 e no início deste ano, à direção da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e à reitoria, mas não obtiveram qualquer resposta, desde então. “Os e-mails questionavam se, perante os constantes elementos da Russkyi Mir presentes na faculdade se ainda existia uma ligação com a Universidade de Coimbra, porque mesmo dentro do Centro de Estudos Russos era possível observar sinais de que este Centro ainda fazia parte da rede global da Fundação Russkyi Mir”.

À CNN Portugal, fonte da Universidade de Coimbra garantiu que o protocolo foi terminado em dezembro de 2021. No entanto, não revelou a razão pela qual símbolos da Russkyi Mir ainda estavam presentes na faculdade um ano depois dessa ligação ter sido cortada. Também o próprio reitor da UC recusou-se a divulgar os factos que levaram à demissão do diretor do Centro de Estudos Russos. "Houve uma rescisão de contrato de uma pessoa que está reformada. Tinha um vínculo, através de um contrato com a Universidade, mas a título gracioso", sublinhou.

Certo é que após as denúncias destes ativistas, o website do Centro de Estudos Russos, que continha uma entrada a 21 de julho de 2022 - já depois da UC ter anunciado o fim do contrato com a Russkyi Mir - a celebrar o aniversário da fundação criada por Putin, está atualmente indisponível. 

Viachelslav e Olga consideram que a exposição da propaganda russa na Universidade de Coimbra foi importante porque estava a prejudicar a imagem da Instituição centenária como um polo de luta por valores democráticos. “Uma universidade que ensina os seus alunos a serem tolerantes e a lutar por uma Europa democrática não podia manter dentro das suas portas algo cujo propósito é justificar todo o sangue derramado da invasão russa”, considera Olga. “E a Universidade de Coimbra era um sítio perfeito para a instalação desta propaganda porque permite o acesso às mentes dos jovens”, conclui Viacheslav. 

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