Um estudo realizado pelo UK Biobank, citado pelo jornal espanhol La Vanguardia, conclui que as 11:00 são a melhor hora para se pedir um aumento de ordenado. Mas porque não qualquer outra altura do dia?
À CNN Portugal, o médico de clínica geral e familiar Ricardo Moutinho Guilherme explica que a conhecida hormona do stress - cortisol - também atua de forma benigna e, assim que acordamos, é expelido pelo nosso corpo naturalmente.
“De manhã os níveis de cortisol no ser humano estão mais elevados e estão relacionados com o foco e com a energia.”
Apesar de reconhecer exceções à regra, Ricardo Moutinho Guilherme garante que, por norma, “temos mais energia de manhã para fazer tarefas e estamos mais concentrados”, destacando o “início ou o meio da manhã” como uma boa altura para tratar “desses assuntos”.
A opinião é partilhada pela psicóloga Carolina de Freitas Nunes, que elenca mais duas vantagens: “Não só temos mais energia e estamos mais bem dispostos, como vamos dar mais tempo ao empregador para pensar e provavelmente ainda nesse dia obter uma resposta.”
Se o pedido for feito durante a tarde, a probabilidade de se voltar para casa sem uma decisão do patrão aumenta e com ela a ansiedade de não saber o que esperar. “No final do dia a pessoa está mais cansada, não vai receber essa informação de uma forma tão clara e o empregador pode até já estar contaminado por outro tipo de situações que se tenham passado no trabalho”, acrescenta a especialista, sublinhando que “qualquer tipo de decisão deve ser tomada normalmente de manhã”.
"Existe uma relação de medo com o superior hierárquico"
Nas instituições mais informais o contexto é de maior leveza, mas nas empresas de maior dimensão, em que as ligações hierárquicas podem ser mais duras, tende a “existir uma relação de medo com o superior”, explica Carolina de Freitas Nunes. É por isso que muitas vezes o desejo de ter um maior salário nunca se chega a concretizar.
Além disso, “as pessoas têm medo das consequências a que isso possa levar”. “Sabendo que o merecem realmente, têm medo de ser interpretados como alguém que está ali a pedir dinheiro sem dar o suficiente à empresa. Têm medo de que o empregador não ache que ela merece, porque já lhe estão a pagar o suficiente.”
A psicóloga acredita que este medo seja resultado de um sistema penalizador, que está a ser desmantelado pela “nova geração” - que tem menos medo de “pedir coisas”.
María Naqui, coach e psicóloga, refletiu sobre a conclusão do estudo. “Estas afirmações baseiam-se em factos objetivos que, apesar de fornecerem informações interessantes, devem ser contrastadas com as variáveis laborais de cada indivíduo. Pedir um aumento salarial é algo pessoal e nem todos funcionamos da mesma maneira.”
A psicóloga Carolina de Freitas Nunes explica que o primeiro passo para ter sucesso é elaborar um argumento forte, porque “se tudo for bem dito e justificado não há razão para as pessoas terem medo”.
“Em primeiro lugar, pergunta-se ao superior se o trabalho está a ir de acordo com as expectativas. Enaltece-se o trabalho que se faz e pergunta-se se esse esforço não podia merecer um aumento.”
A motivação, defende a psicóloga, pode assentar no “aumento dos preços e das condições de vida”, que legitimam o pedido de ajuste às novas realidades e à economia atual.
Sobre o que não deve ser feito, Carolina de Freitas Nunes recomenda evitar a comparação com o outro. “Não devemos começar por nos comparar ao colega que ganha mais do que nós: não sabemos o que é que foi acordado nem o que levou a outra pessoa a ser aumentada.”
O mês certo
De acordo com o La Vanguardia, um estudo realizado pelo LinkedIn demonstrou que o início do ano, nomeadamente o mês de janeiro, é a altura certo para se tentar um aumento salarial. Durante esta época do ano, são discutidas as previsões de despesas para o ano.
“Se a empresa não tiver uma boa situação financeira ou se estiverem previstas algumas demissões, não é um bom momento para o fazer. Por outro lado, o momento em que se faz a previsão para o ano seguinte é uma boa altura para tentar, porque permitirá aos superiores avaliar os sucessos alcançados durante o ano que passou e delinear uma previsão para o futuro”, pode ler-se na publicação.
No caso de receber um “não”, há que “balançar se é assim que se quer manter e se realmente acha que é uma situação que no futuro poderá vir a mudar”. Para todos os efeitos, é importante, diz a psicóloga, “ser firme”. “Se o patrão der uma data para voltar a ponderar essa decisão deve voltar à luta e perguntar novamente.”