Choques elétricos, cães a ladrar e cantar o hino russo: militar ucraniana relata torturas sofridas às mãos dos russos - TVI

Choques elétricos, cães a ladrar e cantar o hino russo: militar ucraniana relata torturas sofridas às mãos dos russos

Azovstal (Planet Labs PBC via AP)

Shizhana Ostapenko, de 22 anos, esteve cinco meses em cativeiro em Olenivka, depois de ter sido capturada em Azovstal

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Shizhana Ostapenko, uma militar ucraniana de 22 anos que esteve em cativeiro em Olenivka, durante cinco meses, depois de ser capturada em Azovstal, contou como foi sobreviver aos abusos dos militares russos. Em entrevista ao El Mundo, a jovem, que é oficial de comunicação do Exército ucraniano, lembra as torturas e os interrogatórios intermináveis ao longo de vários meses.

"Os russos usavam choques eléctricos para nos fazer falar, mas por vezes nem sequer foi para nos tirar informações, só por diversão. Também usaram cães. Colocavam-nos muito perto do nosso corpo para que ladrassem e tentassem morder-nos. Parte de mim sabia que os interrogadores não os iam deixar, que só queriam assustar-nos, mas é inevitável que o medo se apodere. O medo quebra-nos", lembra a militar.

Para além de cães e choques elétricos, houve torturas como obrigar as pessoas em cativeiro "a aprender e a cantar o hino russo". "Por sorte, esqueci-me da letra." No entanto, garante, apesar dos insultos e do desprezo por parte dos militares russos, nunca houve abusos sexuais. 

Ostapenko entrou no exército em 2021, onde se especializou no ramo das comunicações, e foi nesse ramo que acabou por ajudar o regimento Azov quando começou a invasão russa a 24 de fevereiro de 2022. 

"Não pertenço ao regimento Azov, mas quando a invasão russa começou, eles comandavam a defesa de Mariupol e pediram-me ajuda com as comunicações. Assim o fiz e não me arrependo de nada. Comecei a trabalhar com eles como operadora", revela a jovem que depois de ter passado por Mariupol e pelo cativeiro russo em Olenivka, se prepara para entrar em combate em Bakhmut.

Shizhana Ostapenko fez, inclusive, parte do grupo de 108 mulheres libertadas pela Rússia numa troca de prisioneiros em outubro passado. A militar diz que "nunca" esquecerá esse dia. "Tiraram-nos da prisão sem nos dizerem para onde íamos. Como já tínhamos sido transferidas da prisão antes, pensámos que seríamos levadas para outro lugar, mas primeiro viajámos para a Crimeia e de lá para Zaporizhzhia, onde cruzámos as linhas para território controlado pela Ucrânia".

Prisioneiras de guerra ucranianas libertadas em outubro (Foto: Andrii Yermak via EPA)

Manter o humor

Do cativeiro depois de Azovstal, Shizhana recorda ainda como as pessoas que se refugiaram no complexo metalúrgico tiveram de racionar a comida que encontraram na empresa, como não pôde dormir durante vários dias, a situação desesperada dos feridos e como empunhou as armas e abriu fogo contra os russos quando estes tentavam roubar mantimentos.

"Sou um soldado e estou autorizada e habilitada a disparar. Defendo-me tal como aos meus camaradas", revela, acrescentando que o conjunto de soldados que defendia Azovstal era composto por um grupo de unidades que incluíam membros do regimento Azov, fuzileiros ucranianos, polícia aduaneira e os poucos militares da cidade.

Juntos, mantiveram-se vivos e perante as condições difíceis que enfrentavam o que os "mantinha vivos, era o sentido de humor".

"Os civis que se escondiam connosco perguntavam-nos como podíamos brincar uns com os outros em momentos tão difíceis, mas era a melhor maneira de evitar que nos desmoronássemos."

Os russos acabariam por cercar o complexo e Shizhana, que manteve sempre contacto com a mãe, chegou mesmo a despedir-se dela. Quando chegou o acordo para os prisioneiros saírem do complexo e renderem-se, todos estavam em más condições físicas, até porque achavam que iam ser mortos pelos russos. Mas, ao invés disso, foram levados para Olenivka, onde continuaram em cativeiro. 

Agora, a militar diz que, depois daquilo que viveu em Mariupol "não pode deixar de combater" os russos. "Não tenho mais medo de nada. Se tiver de morrer, é melhor morrer agora e fazê-lo desta forma".

O batalhão Azov, que tinha centenas de militares entrincheirados no complexo metalúrgico da Azovstal, resistiu durante 82 dias, tento baixado as armas depois de Kiev ter anunciado que precisava dos "heróis ucranianos vivos" e dado ordem aos combatentes que resistiam na Azovstal para que se entregarem ao inimigo.

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