A batalha por Bakhmut ainda não terminou - e está prestes a tornar-se uma zona de tiro sem limites - TVI

A batalha por Bakhmut ainda não terminou - e está prestes a tornar-se uma zona de tiro sem limites

  • CNN
  • Sam Kiley
  • 23 mai 2023, 15:15
Soldados ucranianos disparam um canhão perto de Bakhmut, a 15 de maio de 2023. LIBKOS/AP

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Raramente na história da guerra se falou tanto, no meio de tanta morte, sobre um lugar que importava tão pouco - essa é a Batalha de Bakhmut. Por agora.

O líder da companhia mercenária russa Wagner afirmou no sábado que os seus homens tinham capturado a cidade após "224 dias de luta". A Ucrânia negou - e insistiu que não só Bakhmut não caiu como está a ser flanqueada pelas forças de Kiev.

A vice-ministra da Defesa da Ucrânia, Hanna Maliar, disse na segunda-feira que as forças ucranianas ainda controlam alguns edifícios no sudoeste de Bakhmut e que os dois lados ainda lutam pelo controlo a norte e a sul dos subúrbios da cidade.

Durante meses, os comandantes ucranianos responsáveis pelas tropas no terreno, e as próprias tropas, não perceberam por que razão a Rússia estava disposta a investir tanto material e a gastar tantas vidas na tentativa de capturar uma cidade que não tem qualquer valor tático e muito menos estratégico.

Soldados ucranianos disparam um canhão perto de Bakhmut a 15 de maio de 2023. LIBKOS/AP
Yevgeny Prigozhin, líder do grupo militar privado Wagner, fotografado em 20 de maio de 2023, em Bakhmut. Prigozhin's Press Service/Telegram

A Wagner, e quem quer que esteja a pagar as contas da empresa, foi perdulária com o seu pessoal.

Em dezembro, um membro da Legião Internacional de Defesa da Ucrânia, que combatia num grupo de cerca de uma dúzia de homens a sul da cidade, telefonou da linha da frente.

"É incrível", disse. "Os tipos da Wagner vêm em vagas de uns 40 de cada vez. Nós matamos 35. Cinco entram numa trincheira ou numa casa, depois mandam mais 40 e nós matamos mais 35 ou mais."

Presumia-se que os "músicos", como os grupos pró-russos gostam de chamar aos mercenários, eram na sua maioria prisioneiros. Yevgeny Prigozhin gosta de lhes chamar "reincidentes". A estes recrutas condenados, alguns dos quais enfrentavam longas penas, era-lhes oferecida a liberdade se sobrevivessem seis meses na frente de combate.

Um militar ucraniano verifica as posições russas em Bakhmut, a 11 de maio de 2023. RFE/RL/Serhii Nuzhnenko/Reuters

É evidente que muitos não o fizeram. Em vez disso, foram lançados como se de carne para canhão se tratassem.

"Eles estão a chegar a toda a hora. Não sabemos porque dão tanto valor a Bakhmut, mas sabemos onde estão e sabemos onde os matar", disse um comandante de brigada no final do ano passado.

Entretanto, Prigozhin desenvolveu o gosto por criticar publicamente a liderança militar russa, os seus ministros e generais, os seus burocratas e homens de negócios - todos excepto o próprio presidente Vladimir Putin. Em vídeos muitas vezes bizarros, acusou-os de deixarem os seus homens sem munições. Disse que as tropas russas eram cobardes e incompetentes.

O problema é saber como é que isso se vai manifestar quando ele regressar a Moscovo.

Também de acordo com o Washington Post, documentos dos serviços secretos norte-americanos indicam que Prigozhin ofereceu segredos militares à Ucrânia em troca de uma vida mais fácil para os seus homens à volta de Bakhmut. Prigozhin negou o relatório, sugerindo que poderia ter sido fabricado pelos seus inimigos.

A sua graça redentora, para Putin, pode residir no facto de ter sido rotulado como chefe de uma entidade criminosa transnacional pelos EUA. Os deputados franceses também aprovaram uma moção que apela ao governo francês e à União Europeia para que designem a Wagner como uma organização terrorista. O governo britânico não quis comentar as informações de que está pronto para fazer o mesmo.

Mapa da Ucrânia e das regiões controladas pela Rússia (a rosa). Institute for the Study of War

Zona de tiro sem limites

A obsessão da Rússia por Bakhmut, combinada com as artimanhas de um líder mercenário que disse publicamente que os seus homens seriam mortos se se recusassem a combater, fez com que a cidade assumisse um estatuto icónico na guerra, enquanto a Ucrânia luta para se livrar dos invasores russos.

Assim, uma vitória "wagneriana" na cidade é uma bênção para o Kremlin - por enquanto.

Mas os mercenários dizem que querem sair até quinta-feira. E estão a ser flanqueados a norte e a sul por tropas ucranianas.

Se são as únicas pessoas que restam nos escombros da cidade, então é uma zona de tiro livre e eles estão no meio dela.

Longe de uma vitória, correm o risco de morrer se forem cercados pelos ucranianos.

Resta saber se isso preocuparia realmente Putin.

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