Fuga de depósitos pressiona bancos a pagarem mais - TVI

Fuga de depósitos pressiona bancos a pagarem mais

  • ECO - Parceiro CNN Portugal
  • Alberto Teixeira
  • 3 abr 2023, 10:14
Dinheiro (Pexels)

Instabilidade internacional não afetou confiança dos depositantes nacionais. Certificados do Estado vão continuar a roubar depósitos mas não só. Bancos pressionados a pagarem mais pelas poupanças.

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A recente instabilidade financeira internacional não abalou a confiança dos depositantes nacionais. Ainda assim, são cada vez mais aqueles que estão a retirar o dinheiro do banco para aplicar em Certificados de Aforro. Mas não é apenas isso que explica a fuga de depósitos no arranque do ano. Mais famílias estão a pegar nas poupanças para amortizar o crédito para se protegerem da alta da taxa de juros. Um cenário que deixa os bancos pressionados a pagar mais ao pequeno aforrador.

Depois de vários anos a acumularem poupanças, os bancos perderam 4,6 mil milhões de euros em depósitos nos dois primeiros meses de 2023, segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal.

Em contrapartida, os Certificados de Aforro tiveram um crescimento espetacular de mais de cinco mil milhões de euros no mesmo período, com muitos investidores a procurarem tirar partido da alta remuneração (relativamente ao resto do mercado) deste produto do Estado.

A popularidade destes certificados veio mesmo para ficar: o IGCP estima agora que os portugueses invistam 12 mil milhões de euros este ano. Só por conta dos Certificados de Aforro, o Estado já gere mais de 25 mil milhões de euros em poupanças das famílias.

Os bancos contactados pelo ECO confirmam que há um crescente apetite dos aforradores pelos Certificados de Aforro. Tal como os depósitos, são uma opção de investimento e aforro bastante segura, só que os certificados rendem cinco vezes mais. Contudo, adiantam que há mais fatores que ajudam a explicar a saída de poupanças no arranque de 2023.

“Há também apetência por outros produtos, como seguros financeiros e fundos de investimento de risco moderado. Este contexto explica parte dos volumes de saída de depósitos da banca, mas assistimos também a um aumento nas amortizações de crédito, nomeadamente crédito contraído para a compra de habitação”, explicou fonte oficial da Caixa Geral de Depósitos (CGD). O fenómeno verificado no banco público é transversal a todo o setor.

Depósitos em queda

Muitas famílias estão a aproveitar a poupança acumulada nos últimos anos para anteciparem o reembolso do empréstimo da casa ao banco, escapando assim à forte subida das taxas de juro – será mesmo o melhor negócio que pode fazer este ano, como já escreveu o ECO. Estas operações estão isentas de comissão e de imposto de selo desde dezembro do ano passado e de forma temporário, ao abrigo das medidas do Governo para aliviar o impacto do aumento das Euribor.

As estatísticas oficiais dão conta dessa tendência. “Em fevereiro, as amortizações antecipadas de empréstimos à habitação representaram 0,85% do stock de crédito, valor semelhante ao registado em janeiro, mas superior à média mensal de 0,54% registada em 2022”, revelou o supervisor na sexta-feira.

Banca portuguesa protegida da turbulência externa

O fenómeno de fuga de depósitos não é exclusivo da banca portuguesa. Também se verifica a nível europeu: os bancos da Zona Euro viram sair mais de 200 mil milhões de euros nos últimos cinco meses, tendo registado saídas recorde em fevereiro, segundo o Banco Central Europeu (BCE). O aumento das tensões financeiras na sequência da queda do Silicon Valley Bank e do Credit Suisse poderá ter intensificado a saída de poupanças dos cofres dos bancos durante o mês de março, perante a desconfiança que se gerou em relação à resiliência do setor, mas não foi isso que se verificou por cá, de acordo com as instituições portuguesas.

“A banca portuguesa não só está muito melhor, com dados concretos, como neste momento não sente nenhuma turbulência em termos de levantamentos, nem pedidos estranhos”, afirmou o presidente da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Macedo, ao ECO há duas semanas. O BPI também não sentiu nenhuma anormalidade, avançou ao ECO fonte oficial do banco.

Depois de um período de resistência, que até mereceu vários reparos do governador do Banco de Portugal e do Parlamento, os grandes bancos anunciaram em fevereiro aumentos das remunerações dos depósitos com taxas que chegam entre 2% e 3%, mas com muitas condições de acesso.

Foi o suficiente para os clientes tirarem mais dinheiro à ordem e coloca-lo a prazo – os montantes de novos depósitos a prazo de particulares foi de 5,9 mil milhões de euros, 3% acima do mês anterior.

Contudo, a taxa de juro dos depósitos, embora tenha subido para 0,65% em fevereiro, continua bem abaixo da média da Zona Euro (1,53%) e do “grande inimigo” Certificados de Aforro que, ao que tudo indica, vão continuar a render 3,5% nos próximos meses suportada pela alta da Euribor a três meses.

Juros dos depósitos sobem

Neste cenário, os bancos arriscam-se a perder ainda mais depósitos e a ter de subir novamente as remunerações para estancar a fuga. “Atuamos num mercado concorrencial, pelo que estaremos sempre atentos ao mercado, procurando apresentar a todo o momento as melhores propostas para os nossos clientes”, respondeu a Caixa.

“O BPI tem vindo a acompanhar a evolução do mercado e a ajustar a oferta. (…) O banco anunciará oportunamente novas soluções de poupança”, apontou o banco liderado por João Pedro Oliveira e Costa.

Tanto o Novobanco como o Santander lembraram as subidas que promoveram nos últimos meses. “A oferta de depósitos do banco tem vindo a ser atualizada reforçando a sua competitividade. Atualmente, o banco oferece uma multiplicidade de depósitos, para diferentes finalidades e prazos, e com taxas competitivas, que podem chegar aos 3%”, sublinhou o Novobanco. Entre os cinco maiores bancos do mercado, apenas o BCP recusou fazer qualquer comentário.

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