Uma investigação da agência Reuters que recolheu provas numa aldeia ucraniana alvo de bombardeamentos russos, bem como em Londres e em Manhattan, desvenda um mistério de décadas: afinal, quem é o artista por trás das obras de Bansky?
A investigação começou em 2022, quando uma série de murais de Bansky começaram a aparecer nas paredes de edifícios bombardeados em aldeias e cidades ucranianas, como Horenka, que fica a menos de oito quilómetros de Bucha, onde as forças russas executaram menos 300 civis sete meses antes. Na altura, três homens tinham sido vistos a sair de uma ambulância em frente a um dos prédios, numa aldeia nos arredores de Kiev. Dois usavam máscara a cobrir o rosto, outro estava sem máscara e tinha próteses num braço e em duas pernas. Os dois homens mascarados tiraram latas de tinta em spray e começaram a trabalhar, reproduzindo na parede do prédio a imagem de um homem dentro de uma banheira, no meio dos escombros.
Semanas depois do aparecimento destes murais, um repórter da Reuters visitou Horenka com uma seleção de fotografias de artistas frequentemente apontados como sendo Bansky e mostrou-as aos locais, para ver se alguém o reconhecia. Entre as fotografias estava Thierry Guetta, um artista de rua conhecido como Mr. Brainwash, que apareceu no documentário de Bansky, “Exit Through the Gift Shop”, nomeado para os Óscares em 2010. Na reportagem, a Reuters reconhece que este era um candidato improvável, tendo em conta que Guetta é francês e Banksy apresentou-se como sendo natural de Bristol, Inglaterra. Ainda assim, o repórter não descartou a hipótese.
Outra fotografia mostrava Robin Gunningham, um artista natural de Bristol que já tinha sido apontado como Banksy em 2008, pelo jornal britânico The Mail on Sunday. Na altura, o jornal divulgou a fotografia de um homem, descrevendo-o como “supostamente Banksy”. Confrontado com a investigação, o manager do artista negou ao tabloide que se tratasse de Banksy.
Entre as fotografias, encontrava-se ainda um terceiro artista, também de Bristol: Robert Del Naja, vocalista da banda Massive Attack, e descrito pela Reuters como “pioneiro do graffiti conhecido como 3D”. Em 2016, um escritor escocês chamou a atenção para o facto de terem aparecido várias obras de Banksy nos mesmos locais e aproximadamente na mesma altura em que os Massive Attack tinham atuado.
A viagem para Horenka não foi em vão. Tetiana Reznychenko, residente naquela aldeia ucraniana, contou à Reuters que preparou café para os dois homens que pintaram o mural conhecido como Homem na Banheira e que os viu sem máscara. Ao olhar para as fotografias, a Reuters conta que os olhos de Tetiana arregalaram-se quando viu Robert Del Naja, ao mesmo tempo que negava ter visto o homem na fotografia. A reação de Tetiana não provou nada, mas abriu outros caminhos à investigação. Sobretudo quando os repórteres receberam a informação de uma fonte, que dizia ter visto Robert Del Naja no hotel Hilton, em Kiev, precisamente na altura em que surgiram os murais de Bansky.
A Reuters conseguiu confirmar, mais tarde, através de fontes de imigração na Ucrânia, que Robert Del Naja tinha entrado na Ucrânia a 28 de outubro, pouco antes do aparecimento dos murais de Bansky, bem como outro homem, Giles Duley, identificado como o único entre os três que saíram da ambulância em Horenka que não estava mascarado.
O terceiro homem continuava a ser um enigma. A Reuters tentou chegar ao contacto com Robert Del Naja, sem sucesso, e Giles Duley, contactado por e-mail, respondeu apenas: “Deixo isso para a equipa do Bansky.”
Quem aceitou falar com a Reuters foi Steve Lazarides, antigo empresário de Banksy, que publicou o livro “Bansky Captured”, onde relata a sua experiência como manager do artista desde o final da década de 1990 até 2008. O livro contém sobretudo fotografias de bastidores, ocultando o rosto do artista, mas, segundo a Reuters, as imagens e o texto estavam “repletos de pistas”, incluindo uma passagem sobre a detenção de Banksy, há mais de 25 anos, em Nova Iorque.
A piada que levou à detenção de Banksy
Naquele setembro de 2000, a galerista Ivy Brown, que representava Lazarides na sua carreira fotográfica, lamentou-se a Lazarides e a Banksy por causa de um anúncio publicitário que tinha sido colocado por cima do prédio onde vivia, em Manhattan. Em declarações à Reuters, Ivy Brown conta que teve “um colapso” quando o viu, porque sentiu que “aquilo desfigurava o prédio”. Dirigindo-se a Banksy, Ivo Brown sugeriu: “Adorava que fizesses algo ali em cima’.”
Ivy Brown recorda-se que Banksy passou os três dias seguintes num bar do outro lado da rua, a olhar fixamente para o painel publicitário. Mais tarde, Banksy “alterou o outdoor da Marc Jacobs para que o modelo tivesse dentes tortos" e desenhou um "balão de fala gigante", sem texto, descreve Lazarides no livro, citado pela Reuters.
Banksy não conseguiu terminar a obra - foi detido pela polícia de Nova Iorque antes que a pudesse concluir. Embora Lazarides não especifique no seu livro o dia da detenção nem a morada do edifício, a Reuters conseguiu identificar o prédio e a data em que o outdoor foi colocado e, assim, obteve acesso a documentos policiais e a um processo judicial referente à detenção.
Os documentos mostram que às 04:20 da manhã de 18 de setembro, as autoridades encontraram um homem a vandalizar um painel publicitário no telhado do edifício com o número 675 da Hudson Street. Entre os documentos, encontra-se a confissão por escrito do homem, que foi libertado mais tarde nesse dia, com uma acusação reduzida de crime grave para uma contraordenação por conduta desordeira. De acordo com a Reuters, a polícia não fazia ideia de que tinha detido Banksy, porque o artista só recentemente tinha começado a usar esse pseudónimo. Sabia apenas que tinha detido Robin Gunningham, conforme assinado na confissão.
Ou seja, conclui a Reuters, o Mail on Sunday tinha razão em 2008 ao revelar que Robin Gunningham era Banksy. Todavia, segundo a Reuters, não há registo de que Gunningham tivesse estado na Ucrânia.
O antigo manager de Banksy ajudou a desvendar o mistério. Quando foi contactado pela Reuters, no final do ano passado, Lazarides respondeu que “não existe nenhum Robin Gunningham”. “O nome que tens matei-o há anos”, afirmou, explicando que em 2008, antes de deixarem de trabalhar em conjunto - por decisão “mútua”, segundo o empresário - Lazarides trabalhou na mudança legal de nome para o seu cliente.
“Não me lembro de quem foi a ideia, mas sei com certeza que fui eu quem organizou tudo”, assegurou Lazarides, recusando revelar o nome que Gunningham adotou. “É apenas outro nome”, insistiu.
Os repórteres da Reuters levaram esta frase à letra e investigaram estes novos dados com os registos públicos relacionados com Bansky - empresas ligadas a ele, excertos de livros ou artigos sobre o artista em várias fases da sua vida, entre outros. E foi assim que identificaram o que acreditam ser “o nome que Banksy adotou”, descrevendo-o como “um dos nomes mais populares da Grã-Bretanha” - David Jones.
Os registos da imigração na Ucrânia mostram que um indivíduo chamado David Jones deu entrada no país a 28 de outubro e saiu a 2 de novembro, precisamente as mesmas datas de entrada e de saída de Giles Duley e Robert Del Naja. Uma fonte confirmou à Reuters que a data de nascimento que constava no passaporte de David Jones é a mesma data de nascimento de Robin Gunningham.
A Reuters diz ter confrontado o próprio Bansky com estas conclusões sobre a sua identidade, mas o artista não respondeu. Mark Stephens, que a agência identifica como “o seu advogado de longa data”, pediu à Reuters para que não publicasse esta reportagem, alegando que a mesma violaria a privacidade do artista, interferiria com a sua arte e o colocaria em perigo.
Na reportagem, a Reuters diz ter tido em conta todas estas questões, mas concluiu que “o público tem um profundo interesse em compreender a identidade e a carreira de uma figura com a sua profunda e duradoura influência na cultura, no mercado da arte e no discurso político internacional”. E, por isso, a agência de notícias diz que aplicou “o mesmo princípio que utiliza em todo o lado”. “As pessoas e as instituições que procuram moldar o discurso social e político estão sujeitas a escrutínio, responsabilização e, por vezes, desmascaramento. O anonimato de Banksy – uma característica deliberada, pública e lucrativa do seu trabalho – permitiu-lhe operar sem essa transparência.”
Esse é o argumento de vários artistas de rua que questionam se Banksy, outrora considerado um artista “antissistema”, goza agora de um tratamento especial por parte das autoridades. David Speed, um artista de rua que dirige um coletivo de ‘graffiters’ no Reino Unido, é uma das vozes críticas. Em declarações à Reuters, David Speed elogiou Banksy como “um artista realmente importante dos tempos modernos”, mas questionou porque é que “um artista deveria ter carta branca enquanto todos os outros estariam sujeitos a penalizações”. “Ele está acima da lei?”, interrogou-se Speed. “As evidências sugerem que sim.”