Bruno Lage é um treinador atento ao detalhe e com estratégias que vão além do plano de jogo. Isso ficou plasmado na intervenção que o treinador português teve na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, nesta sexta-feira.
O tema era o início de temporada inédito do Benfica - com 14 dias de férias, quatro jogos de qualificação para a Champions, uma Eusébio Cup, uma Supertaça Cândido de Oliveira, dois jogos da Liga... tudo isto até final de agosto. Lage explicou como planeou a periodização de treino da pré-época.
Uma pré-época muito curta, com apenas três momentos de jogo antes da Eusébio Cup, a 26 de julho, diante do Fenerbahçe de José Mourinho. E teve uma inspiração curiosa para esse planeamento: a pré-temporada do Fazendense em 2000/01, quando integrava a equipa técnica de Jaime Graça, a grande referência de Lage. Um torneio em Almeirim trocou as contas à equipa técnica, na altura.
Assim, Bruno Lage foi aumentando progressivamente os minutos de jogo, sempre à porta fechada (contra equipas da formação, 1.º Dezembro e Estoril), com três dias de intervalo entre si. Com um novo plantel a ser formado, Bruno Lage revelou estratégias para libertar a pressão dos ombros dos jogadores:
«Houve muitas pistas que passámos aos jogadores, com ajuda dos nossos amigos da comunicação social, e que eram bluff. Disseram que não jogávamos a Supertaça Cândido de Oliveira e entrámos na onda. Era tudo bluff. No segundo dia de pré-época, utilizámos as bolas do Campeonato do Mundo de Clubes. Não é que não quiséssemos jogar a Supertaça, mas queríamos tirar a pressão dos jogadores», disse.
Chegou a ser dito em alguns órgãos de comunicação social, recorde-se, que o Benfica podia não apresentar-se a jogo na Supertaça Cândido de Oliveira em protesto não só com a sua calendarização, a meio dos jogos de apuramento para a Liga dos Campeões, como também na ressaca do polémico desaire com o Sporting na final da Taça de Portugal, com a 'pisadela' de Matheus Reis na cabeça de Andrea Belotti.
Mais à frente, Lage revelaria ainda que, com umas férias tão curtas, a cor do equipamento de treino dos jogadores também foi pensada: «Mudámos de branco para vermelho para que eles percebessem que esta já era uma nova temporada».
«O selecionador tem mais tempo de treino do que nós»
A preparação física, lá está, era uma grande preocupação da equipa técnica.
«O que o Jaime [Graça] me dizia era que qualquer jogador com pouco tempo de treino consegue fazer um jogo. O que difere é a forma de recuperar. Vai precisar de mais tempo. Debati-me internamente que o intervalo entre jogos fosse mais cuidado. E não estou a dar indiretas a ninguém», garantiu.
«Todas as equipas que estiveram no Mundial de Clubes tiveram apenas um jogo por semana em agosto. Acho que o Benfica foi a única equipa dessa competição que teve de disputar pré-eliminatória da Champions. Além dos ciclos de treino, temos de perceber bem onde passar conteúdos para os jogadores», enfatizou.
«Tive várias vezes a oportunidade de dizer que o tempo era o nosso grande adversário. Já não é meu, é do míster José Mourinho. Há algo que mudou nos períodos de seleção e, por incrível que pareça, o selecionador tem mais tempo de treino do que nós. Os jogadores estão a chegar cada vez mais tarde», encerrou Lage.
Por fim, o treinador (que falou perante uma plateia de jovens e, também, para o ex-treinador do Casa Pia João Pereira, que estava numa das filas da frente) deixou elogios ao grupo de trabalho.
«Foi um grupo fantástico de jogadores, muito profissional. Com Nico [Otamendi], [Ángel] Di María e mais jovens. Uns estavam em final de contrato, outros queriam sair e todos encarámos o Mundial como um Mundial de Seleções. Cada um foi à sua vida no final. Foi uma experiência muito grande para mim e a nossa equipa técnica», terminou.
Bruno Lage não saiu da FMH sem um presente - um bloco de notas oferecido pelo Professor António Paulo, que deu também lhe deu aulas. E deixou uma reflexão perante vários jovens que ambicionam ser treinadores: há cada vez mais falta de bons técnicos da formação, pois estes passam muito rapidamente para clubes do CP ou da Liga 3.