«Hoje estamos a educar jovens analfabetos motores» - TVI

«Hoje estamos a educar jovens analfabetos motores»

Rodrigo Magalhães (DR)

Rodrigo Magalhães foi diretor técnico da formação do Benfica durante 20 anos e falou ao Maisfutebol no último dia no cargo

Rodrigo Magalhães foi durante 20 anos diretor-técnico da formação do Benfica. No último dia como funcionário do clube, depois de esvaziar o gabinete no Seixal e de entregar o carro na Luz, encontrou-se com o Maisfutebol no Estado Universitário para um longa conversa.

Durante cerca de duas horas, falou de tudo e emocionou-se uma, e outra, e outra, e outra vez. A entrevista parou várias vezes, enquanto as lágrimas lhe caíam pela cara. Mas não se negou a falar de nada: do passado, das razões para a saída e de como será o futuro.

Falou também de um tema que lhe é muito caro: a motricidade infantil. Rodrigo Magalhães tem-se afirmado como um dos maiores defensores de introduzir a dança, a ginástica e o futsal na formação de jovens jogadores. Tudo começou quando fez uma filmagem e percebeu que os miúdos de agora só fintam com pés, pernas e joelhos, ao contrário das gerações anteriores, que fintavam com o corpo todo.

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A aventura como diretor-técnico começou porque o Rodrigo criou um conceito de formação na sua cabeça e depois veio apresentá-lo ao Benfica, foi isso?

Na altura, sim. Obviamente que o Benfica tinha alguns treinadores competentes, não tinha era uma organização muito vincada. O modelo de jogo era distinto entre os escalões, o sistema de jogo também era distinto, acho que era uma estrutura embrionária que tentava sobreviver face às dificuldades que tínhamos na altura. Antes de eu chegar ao Benfica, o clube ia fechar o centro de estágio ao lado dos Pupilos do Exército, onde ficavam os miúdos de fora, e ia mandar esses miúdos para casa, porque não tínhamos dinheiro para alimentação ou papel higiénico.

Os jovens que eram de fora iam todos embora?

Isto não aconteceu comigo, foi um ano ou dois anos antes. Lembro-me de, já comigo, irmos comprar pão para as sandes dos miúdos e de não nos fiarem o pão. O nome do Benfica na praça estava queimado. Foi aquela era pós-Vale e Azevedo, o Benfica estava a tentar ressuscitar com o presidente Luís Felipe Vieira, mas esses momentos foram complicados.

E o que o Rodrigo trouxe para o Benfica nessa altura?

Obviamente tinha algumas ideias, mas acima de tudo trouxe alguma coerência e alguma organização. Juntamente com os treinadores foram criados modelos de jogo, modelos de treino, modelos de avaliação dos jogadores, ferramentas de planeamento, controle e avaliação do processo, enfim. E aí devo muito ao Jaime Graça, aos ensinamentos do Jaime Graça, ao que ele pensava e já produzia também. O Jaime Graça acaba por ser o pai futebolístico de muitos de nós, não só treinadores, como também coordenadores e pessoas que desenvolvem atividade nesta megaestrutura.

E ao fim destes 20 anos, o que é que mais o orgulha do trabalho feito?

Temos de dividir isto pelo menos em dois patamares. Uma coisa que me dá muito orgulho, e que não é visível, é a quantidade de jogadores que não se tornaram profissionais de futebol e que hoje em dia têm a sua vida organizada, estudaram, são bons homens, com bons princípios, com bons valores e reconhecem a importância que o Benfica teve na sua vida. Já são pais e recordam com carinho o período no Benfica. Não tiveram sucesso, ou muito sucesso, mas têm o carimbo da formação Benfica. Esse é um legado fantástico.

E no patamar desportivo?

O ADN do Benfica é formar a ganhar, formar para sermos competitivos, sim, mas quando digo ganhar, muitas vezes não é ganhar jogos. É ganhar jogadores para a equipa principal. Nesse sentido, obviamente o maior troféu é a quantidade de jogadores que foram produzidos para a equipa principal do Benfica e para o futebol mundial. Acho que é um legado extremamente interessante.

«O Benfica foi pioneiro na preocupação com a motricidade infantil dos jovens»

Também por força sua, o Benfica deixou de competir nos escalões sub-11 para baixo.

Acho que fui um dos impulsionadores dessa ideia. Na altura era no mínimo estranho olharmos para a atividade desportiva proporcionada a um jovem adolescente e percebemos que era uma coisa que não estaríamos a fazer tão bem. Por exemplo, um miúdo que vivia em Sintra investia uma hora para se deslocar para os Pupilos do Exército, equipava-se, ouvia a palestra, ia aquecer e nisto investia mais uma hora. Se num jogo de futebol de sete jogasse meia parte, teria portanto 30 minutos de atividade. A seguir tomava banho, fazia o balanço do que tinha sido o jogo e depois investia mais uma hora para regressar a casa. Portanto, esse miúdo investia cinco horas numa manhã e início da tarde, que se traduziam em 30 minutos de atividade. Mesmo se jogasse o jogo todo, seriam 60 minutos de atividade.

E o que é que o Benfica faz hoje de diferente nesses escalões iniciação?

No mesmo espaço de tempo conseguimos proporcionar aos nossos miúdos uma Benfica League, por exemplo, com regras muito próprias, em que cada jogo tem três partes de 20 minutos e cada parte vale um ponto: pode ganhar 10-0 na primeira parte, se na segunda parte perder por 1-0, as duas equipas têm um ponto cada. Ou seja, mantemos os miúdos focados mais tempo e com hipótese de disputar o resultado. Temos sempre uma parte suplementar, com marcação de grandes penalidades ou situações de um contra zero. Os jogadores jogam fora da sua posição preferencial. Temos um período com total ausência de feedback do treinador, para estimularmos a autonomia, a criatividade e a organização dos nossos jogadores. Isto é muito diferenciador e permite-nos fazer dois ou três jogos no tempo em que antes fazíamos um.

E ainda podem acrescentar dança ou ginástica à manhã, não é?

O Benfica foi pioneiro com o programa de motricidade infantil, porque os nossos jovens de hoje não brincam na rua, não fazem atividades motoras na rua, coisas fundamentais como saltar, agarrar, arremessar. Como dizia o Prof. Neto, estamos a educar jovens analfabetos motores. Os miúdos hoje têm dificuldades em saltar à corda, em dar cambalhotas ou fazer a roda. Não têm conhecimento do próprio corpo. Isto está errado. Portanto, a motricidade infantil foi algo pioneiro e que trouxe um conjunto de atividades motrizes para os nossos treinos. Falou da dança e da ginástica, mas há outras de coordenação, de postura, de flexibilidade.

Essa preocupação com a motricidade fina surgiu logo que chegou ao Benfica?

Não, foi mais tarde, quando fizemos umas filmagens de ações de drible, finta e simulação. Nessa altura percebemos que as novas gerações praticamente só driblam com a parte inferior do corpo: pernas, joelhos e pés. Ao contrário de gerações passadas, que tinham um movimento muito mais fluído do corpo, dos braços, da cintura pélvica e escapular, de agilidade e até plasticidade, era um movimento muito mais elegante. E isso associou-se a outra temática que também sempre usamos no clube, que são as estratégias adotadas para combater o desaparecimento do futebol de rua. Curiosamente hoje está temática é transversal a nível nacional e já há estudos sobre essa matéria. Há um ano ou dois, a própria Confederação Brasileira criou o programa Brincar ao Futebol, em que muitos dos trabalhos têm como base algo que já é feito aqui há mais de uma década.

Que outras atividades desse género o Benfica costuma promover?

Por exemplo, o futsal, que nos permite ter uma alternância mais célere nos momentos de jogo. Esta alternância é fantástica, tem o cérebro do miúdo sempre a funcionar e a prepará-lo para uma mudança de comportamentos. Cada vez existe menos espaço no futebol moderno, logo o nível técnico tem de ter uma acuidade superior. Já não se pode fazer um passe 40 centímetros ao lado, a receção já não pode fugir um metro, tem de se pensar mais rápido e o futsal contribui muito o desenvolvimento deste tipo de conteúdos tendo em conta o futebol que está a emergir. E temos também as jaulas, obviamente, com as tabelas e a rede que circunda por via aérea o espaço do jogo. A bola está sempre em atividade, o jogador pode utilizar a tabela para fazer o um-dois, pode fazer um remate acrobático e tudo isto contribui para tudo o que seja a espontaneidade e a criatividade.

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