Quem é o novo homem forte do futebol do Benfica? - TVI

Quem é o novo homem forte do futebol do Benfica?

Mário Branco (DR)

Mário Branco nasceu em Matosinhos e tornou-se adolescente no Estádio do Mar: filho de um antigo presidente do Leixões e irmão de um também diretor desportivo, viveu o futebol desde muito novo. Já trabalhou num jornal e com um agente de jogadores, mas foi apenas para amealhar conhecimento, antes de chegar onde sempre quis: ao cargo de diretor desportivo. No Hajduk Split, no PAOK e no Fenerbahçe fez os maiores negócios da história dos clubes.

Relacionados

Apesar de ter quase um quarto de século ligado profissionalmente ao futebol, Mário Branco não é um nome que diga muito ao adepto comum. Discreto e recatado, tem-se mantido longe dos holofotes e quem o conhece destaca sobretudo a eficiência e a capacidade de criar laços.

Mas quem é afinal o novo diretor-geral do futebol do Benfica?

Natural de Matosinhos, com 49 anos, não nasceu literalmente dentro do jogo, mas cresceu perto dele: entre bolas, chuteiras e conversas de bastidores. Aconteceu nos balneários do Estádio do Mar, onde o pai foi presidente do Leixões em duas fases distintas.

Américo Branco passou o bichinho do dirigismo desportivo aos dois filhos: Mário, o mais velho, e Américo, o irmão, que hoje é diretor desportivo do Fortuna Sittard.

O futebol, lá em casa, sempre foi um assunto de família e só a irmã Clotilde não seguiu o mesmo caminho: dedicou-se a ajudar o pai no negócio de família.

Mário Branco e o irmão Américo, por outro lado, têm nos genes a paixão pelo jogo e o entusiasmo pelos gabinetes. No Estádio do Mar, ao longo de várias épocas, viram de perto o que era o futebol real: sem filtros, sem glamour, com os seus códigos e as suas dores.

Fala seis línguas, arranha mais três idiomas e tem o curso de treinador

Mário desde cedo aprendeu a escutar antes de falar e a observar antes de agir. Dois traços que hoje fazem dele um especialista em relações humanas e um líder discreto, mas eficaz.

Poliglota, fala fluentemente seis línguas: português, espanhol, francês, italiano, inglês e romeno. Para além disso, entende o croata e tem noções de grego e turco. O domínio das línguas é um traço fundamental para as boas relações que consegue criar.

Quem o conhece destaca-lhe ainda a inteligência, a competência, a capacidade para gerir equipas e os conhecimentos da área técnica, ou não tivesse ele o curso de treinador UEFA B.

Foi jornalista e trabalhou com um agente, mas só queria ser diretor desportivo

O caminho de Mário Branco foi construído com tempo, estudo e sensibilidade. Licenciou-se em Relações Internacionais, na Universidade Lusíada, e começou por tentar entender o futebol através das palavras: por isso esteve cerca de ano e meio no jornal O Jogo.

Entrou como estagiário, ainda enquanto estava a acabar a licenciatura, e foi ficando: não porque quisesse ser jornalista, mas queria compreender a máquina dos media por dentro.

Mais tarde, após concluído o curso de Relações Internacionais, aceitou um convite de António Teixeira, também ele um ex-dirigente do Leixões, para trabalhar na Promosport, uma agência de representação de jogadores. Durante três anos e meio geriu operações, lidou com atletas e clubes, e aprendeu a negociar, mas recusou sempre ser agente.

«Trabalhei por um salário, nunca por uma comissão», repete como sinal de princípio.

Da cadeira de sonho em Matosinhos... para a Europa

Na cabeça teve sempre a entrada num clube: era o verdadeiro rumo e começou a traçá-lo em 2004, quando entrou para o liderar o scouting e recrutamento do Pontevedra, em Espanha. Seguiu-se nas épocas seguintes o  mesmo papel no Wisla Cracóvia e o Zaglebie Lubin, da Polónica, e o Steaua Bucareste, da Roménia.

Foi ganhando olho clínico e sensibilidade táctica, mas também algo raro no futebol moderno: uma compreensão profunda da psicologia dos balneários e dos corredores da gestão.

Em janeiro de 2010 regressou a casa para assumir o cargo de diretor desportivo do Leixões, então na I Liga. Foi o primeiro passo oficial como dirigente e foi um alívio: Mário Branco estava finalmente na cadeira de sonho, no sítio onde sempre quis estar.

A estreia não correu bem, o Leixões desceu de divisão, e seguiu-se então uma viagem pelo futebol europeu que moldou um dos dirigentes portugueses mais respeitados lá fora. Astra Ploiesti, na Roménia. Hajduk Split, na Croácia. PAOK, na Grécia.

Os melhores anos da história do Estoril

Pelo meio, esteve quatro anos como diretor desportivo do Estoril. No melhor período da história do clube. Conseguiu um quinto e um quarto lugar, dois apuramentos europeus, portanto, e fez vendas milionárias como Jefferson (Sporting), Evandro, Licá e Carlos Aberto (FC Porto), Steven Vitória (Benfica), Léo Bonatini (Al Hilal), Diego Carlos (Nantes), Sebá (Olympiakos), Anderson Esiti (Gent), Luís Leal (Al Ahli), João Pedro (Cagliari), Carlitos (Sion), Gonçalo Santos (Dínamo Zagreb) e Kuca (Karabukspor).

Em quatro anos, fez cerca de 20 milhões de euros em vendas. O que, há mais de dez anos, e para um clube acabado de chegar da II Liga, era de facto qualquer coisa de extraordinário.

Após uma temporada no Famalicão, marcada pela venda milionária de Ugarte para o Sporting e pelas contratações de Jhonder Cadiz e Simon Banza, o dirigente seguiu então para o gigante Fenerbahçe, da Turquia.

Recebido por Jorge Jesus, elogiado por Mourinho

Em Istambul, impressionou.

Chegou com Jorge Jesus e saiu dois anos depois com Mourinho. Geriu egos, liderou negociações de peso e criou pontes duradouras com empresários, dirigentes e atletas. A sua reputação de gestor moderno, com inteligência emocional, cresceu em silêncio, mas de forma sólida. Foi inclusivamente elogiado por José Mourinho.

«É difícil dizer 'és o melhor' sem desrespeitar alguns diretores desportivos muito bons com os quais tive o privilégio de trabalhar. Ainda assim, posso dizer com toda a certeza que ninguém é melhor do que tu. A tua combinação de técnica, integridade e humanidade é incrivelmente difícil de encontrar. Vou genuinamente sentir falta de trabalhar contigo e espero sinceramente que tenhamos a oportunidade de voltar a trabalhar juntos um dia. Boa sorte, amigo», escreveu o treinador nas redes sociais.

Com discrição e firmeza, foi peça central na contratação de nomes como Edin Džeko, Batshuayi e Youssef En-Nesyri, mas sobretudo nas negociações de Arda Guller, para o Real Madrid, e de Ferdi Kadioglu, para o Brighton.

Dois negócios que movimentaram 55 milhões de euros.

As maiores transferências da história do Hajduk Split, do PAOK e do Fenerbahçe

Curiosamente os dois maiores negócios da história do Hajduk Split (Vlasic para o Everton, por 10,8 milhões) e do PAOK (Prijovic para o Al Ittihad por 10 milhões) também são ainda dele.

Mas se há algo que dizem que o distingue, é a capacidade de criar relações de confiança duradouras. Mário Branco lidera com escuta ativa, empatia e presença. Combina visão desportiva com sensibilidade de gestão, e é aí que se encontra o seu maior trunfo.

A chegada ao Benfica representa a entrada num novo patamar: um clube com mais ambições europeias, exigência permanente e uma massa adepta vigilante.

Na Luz, terá como missão reorganizar a estrutura desportiva, potenciar o scouting e reforçar as ligações entre departamentos. Não chega para mudar tudo: chega para ligar o que já existe.

Continue a ler esta notícia

Relacionados