O CFO do Benfica, Nuno Catarino, destacou os 29 milhões de euros de lucro no primeiro semestre do exercício de 2025/26. Em entrevista à BTV, o dirigente encarnado salientou que é um resultado «bastante bom» e lembrou ainda os «números sem paralelo» nas receitas com a entrada de novos sócios e merchandising. Além disso, garantiu que os encarnados não precisam da centraliação.
«O resultado de 29 milhões de euros é obviamente bastante bom. Mas eu gostaria de ressaltar esta parte de estarmos a falar de um aumento de 6 por cento no resultado recorrente operacional do clube, que aumenta para os tais 6,7 milhões de euros, que eu acho que – se queremos ver o clube sem o futebol, porque o futebol podemos sempre vê-lo à parte, olhando para a SAD – é talvez a maneira em que se pode ter mais granularidade e melhor entendimento do que estamos aqui a falar», disse Nuno Catarino, em entrevista à BTV.
A organização das eleições do Benfica, como divulgado no relatório, teve «um custo total de 3,2 milhões de euros», apesar do orçamento inicial de 550 mil euros. Nuno Catarino justificou este aumento com a oposição de algumas listas ao voto eletrónico e a necessidade de uma segunda volta.
«Houve uma altura em que as estimativas de custo já estavam nos 4/5 milhões de euros, mas conseguimos negociar muita coisa no momento e conseguimos fechar nos 3,2 milhões de euros.»
O CFO do Benfica também abordou a negociação da centralização dos direitos televisivos, nomeadamente as reuniões «produtivas» com vários grupos parlamentares, na Assembleia da República. Nuno Catarino garantiu que o Benfica «não precisa da centralização» e sublinhou que «ninguém ficará satisfeito» com o resultado final em 2028.
«Explicámos que houve um decreto-lei que foi feito num contexto que já não é o de hoje. A forma como se consome e como se vê o produto já é muito diferente do que era há 10 anos, e o decreto de há cinco anos era baseado no que se fazia há 10 anos. Por isso, há aqui um desligamento, quase, da realidade do decreto-lei. E o decreto-lei, na prática, traz o formato de centralização Big Bang: há um dia maravilhoso em que aparece um mundo novo. Acho que todos já percebemos que não é isso que vai acontecer. E tinha obviamente um pressuposto que era: devolver 300 milhões de euros, que dava para acomodar algum crescimento para o Benfica, um maior crescimento para clubes mais pequenos, algum crescimento para os outros dois grandes, para o Sp. Braga, para todas as equipas. Ou seja, estávamos num mundo de maravilhas há cinco anos. Acho que todos já perceberam que isso não vai acontecer. »
O Benfica, recorde-se, suspendeu a participação na «Liga Centralização» em julho do ano passado e Nuno Catarino frisou que as águias fizeram «propostas concretas». O dirigente destacou também o novo contrato do clube com a NOS.
«A primeira coisa é: o Benfica não precisa da centralização para valorizar o produto que comercializa. O Benfica não precisa. Ainda agora foi ao mercado, em condições que já não eram muito fáceis pelo facto de só poder vender um produto para dois anos, quando toda a gente procura um produto a cinco anos, ou a 10 anos. É inaudito ir ao mercado para vender um produto desportivo a 2 anos, porque não há tempo suficiente para um operador, que queira inovar, fazer inovações suficientes no produto para ter resultados. Apesar disso, tivemos um resultado muito melhor do que qualquer pessoa no meio esperava, e muitas pessoas tiveram de engolir algumas coisas que disseram no passado, porque o resultado do Benfica foi superior àquilo que tinha antes, num contexto que eu já defini como adverso, com o qual todos concordamos.»
O diretor financeiro do Benfica vincou que os responsáveis das águias não são «inconscientes» e escutam «as preocupações dos outros», daí apresentar soluções.
«Nós entendemos que, pelo mesmo problema que o Benfica tinha – mas o Benfica conseguiu negociar, outros não conseguem... –, há clubes que já nem contrato têm. Estão a pedir, estão de mão estendida a pedir contratos muito mais baixos para preencher o gap até 2028. E, quando se chegar a 2028, também não têm uma solução. O que temos dito é que fazem sentido duas coisas na centralização: um adiamento do que está feito para dar tempo para fazer o trabalho de casa, que não foi feito até agora, e repensar um pouco o modelo, mas, sobretudo para estes clubes, que façam uma centralização voluntária, ou seja, se juntem, e isso faz todo o sentido. Juntarem-se 10, 20, 30, quem se quiser juntar. Empacotam o seu produto, tentam vender o seu produto no mercado e temos aqui uma centralização voluntária de quem precisa deste formato como está aqui.»
«Se eu acho que podíamos fazer muito melhor como indústria e valorizar o produto de maneira diferente, acho que sim, mas para isso era preciso ter feito um trabalho de campo que também não foi feito nos últimos cinco anos. Estou no Benfica há um ano e meio, mas vi o que dissemos antes. Dissemos sempre o mesmo: há trabalho que é preciso ser feito para valorizar o produto. Não se valoriza um produto onde os nossos jogadores se equipam em balneários... as pessoas não veem, mas não há condições. Em que filmamos para bancadas que estão interditas por razões de segurança, bancadas que não existem... Nem vou elaborar... Um produto em que não conseguimos sequer ainda fazer um investimento em tecnologia semiautomática do fora de jogo, o que faz com que a gente fique ali às vezes três minutos à espera que aconteça a decisão de um fora de jogo. Estamos a falar de investimentos, mas depois também não estamos a falar assim de tanto dinheiro. E o Benfica tem feito investimentos. Aliás, está aqui a Benfica TV, ainda há pouco tempo estivemos a discutir alguns investimentos que vamos fazer na Benfica TV. Temos investido na Benfica TV durante 15 anos. Sentimos que o Benfica faz investimentos, tenta melhorar o produto, vende o produto, até de uma forma diferente dos outros. E não é só a questão de distribuir na Benfica TV, também a forma como vendemos publicidade é diferente. Os outros venderam a publicidade a alguém para vender por eles, e nós vendemos diretamente. Há aqui vários temas em que sentimos que fazemos um esforço para ir mais além. Por isso é que nós dizemos que não precisamos, para comercializar isto melhor, para extrair mais valor do produto. Outros clubes beneficiavam de ter escala, não tenho a maior dúvida. Então, façamos este modelo, de geometria variável, em que cada um faz o que é melhor para si. Alguns deles, é juntarem-se, achamos que faz todo o sentido. Até já se devia ter começado esse processo antes.»
«Não façam copy-paste de outros mercados. Ainda por cima mercados que já estão a correr mal»
Nuno Catarino assumiu que as conversas com os partidos «foram muito importantes», mas alertou que não é possível fazer «copy-paste de outros mercados».
«Há uma coisa que nós temos dito: da forma como as coisas estão hoje, ninguém vai gostar do resultado final em 2028. Se não alterarmos a forma como as coisas estão a ser feitas... Há algumas exceções, de algumas SAD que têm contextos muito específicos, em que de facto hoje não recebem nada, e, se passarem a receber alguma coisa, vão ficar naturalmente contentes. (…) O Benfica tem esta missão social, isto não existe em mais lado nenhum no mundo, e voltamos aqui à questão de: não nos façam copy-paste de outros mercados. Ainda por cima outros mercados que já estão a correr mal... e basta olhar para a Holanda, que é sempre o exemplo dado: estamos a falar de uma economia que é quase do tamanho da de Espanha, e já tem dificuldades em competir com Portugal. Porque nós, apesar de tudo, com esta arte, às vezes engenho, de cada um tentar fazer o melhor para si e de pôr o modelo a funcionar com alguma tensão, temos conseguido fazer crescer o produto em Portugal. Como eu disse, se não alterarmos a situação como está, ninguém vai gostar do resultado final», rematou.