A SAD do Boavista anunciou esta quinta-feira que avançou com um processo de insolvência com vista à recuperação económico-financeira, depois de ver rejeitado o Plano Especial de Revitalização (PER) que tinha apresentado e perante a impossibilidade de garantir, em tempo útil, o licenciamento desportivo para a II Liga na época 2025/26.
Em comunicado, a SAD do clube da cidade Invicta admite que vive «uma conjuntura económico-financeira de extrema complexidade» e que a situação ficou insustentável, não só pela não aprovação do PER, mas também devido ao «volume de exigências dos credores públicos», apesar de ter já liquidado ao Estado quase cinco milhões de euros desde junho do ano passado.
«A Boavista SAD foi conduzida à única via legal que permite a sua reestruturação integral: a declaração de insolvência com vista à recuperação», lê-se na nota, que garante que esta decisão foi «ponderada e estratégica», depois de «esgotadas todas as alternativas realistas».
A administração, que está em funções desde maio de 2024, sublinha ainda que, apesar das «severas restrições» — com cinco janelas consecutivas sem poder inscrever jogadores, devido a processos na FIFA — conseguiu resolver esses dossiês, reforçar o plantel e lutar pela manutenção até à última jornada. Uma situação que descreve como um «feito desportivo notável».
Mesmo assim, os problemas acumulados entre 2019 e 2023, com o aumento da dívida fiscal, centenas de execuções e incumprimentos de acordos, tornaram inviável qualquer solução extrajudicial.
Apesar do cenário, o Boavista assegura que já deu início à preparação da nova temporada, com o plantel principal a realizar exames médicos esta quinta-feira.
A administração e o acionista maioritário garantem, em conjunto, o «compromisso inequívoco com a recuperação plena da sociedade», seja em que divisão for, prometendo «liderar uma nova etapa de reestruturação, com rigor, transparência e ambição, garantindo as condições para um futuro sólido, sustentável».
De recordar, o Boavista desceu da primeira divisão na última temporada e falhou a inscrição na II Liga, estando a inscrição na terceira divisão portuguesa (Liga 3) em risco caso não sejam regularizadas as contas dos «axadrezados».
Leia aqui o comunicado da SAD do Boavista na íntegra:
«A Boavista SAD vive, neste momento, uma conjuntura económico-financeira de extrema complexidade, cuja viabilidade imediata se tornou inviável na sequência da não aprovação do Plano Especial de Revitalização (PER), anteriormente submetido para apreciação judicial.
Apesar dos esforços significativos da actual Administração — em funções desde 7 de Maio de 2024 — e do apoio financeiro garantido pelo accionista maioritário, não foi possível reunir, em tempo útil, as condições exigidas para a obtenção de licenciamento desportivo para a Liga 2 na época 2025/2026. Por outro lado, o licenciamento para a Liga 3 permanece igualmente em risco, devido ao volume de exigências por parte dos credores públicos, cujo impacto é, neste momento, insustentável para a sociedade, não obstante o facto de terem sido liquidados ao Estado, desde Junho de 2024, montantes acumulados que totalizam € 4.998.474,29. Ainda assim, a Administração mantém-se com a esperança e empenhada contra todas as adversidades.
Durante este período, a Administração demonstrou rigor e sentido de responsabilidade, cumprindo integralmente com as suas obrigações fiscais e com a maioria dos compromissos financeiros correntes, sem que tenha sido agravado o passivo da SAD no decurso da actual gestão.
No plano desportivo, apesar das severas restrições que impossibilitaram, durante cinco janelas de transferências consecutivas, a inscrição de novos atletas — decorrentes de múltiplos processos de FIFA ban acumulados ao longo dos anos — a actual Administração logrou, através de um esforço negocial complexo e sustentado na recuperação da credibilidade institucional, resolver integralmente essas limitações. Tal desfecho permitiu, pela primeira vez em várias épocas, o reforço efectivo da equipa principal. A nova configuração do plantel, resultante dessas aquisições, possibilitou ao Boavista competir com dignidade e disputar a manutenção até à última jornada da temporada, cenário que muitos reconheceram como um feito desportivo absolutamente notável, face ao contexto herdado.
Contudo, os constrangimentos acumulados entre 2019 e 2023 — nomeadamente o crescimento da dívida fiscal, a existência de centenas de execuções e acções judiciais pendentes, sucessivos incumprimentos em acordos pretéritos e um passivo herdado — inviabilizaram qualquer solução extrajudicial equilibrada, financeiramente comportável para a realidade actual da sociedade.
Face à não homologação do PER, à quebra significativa de receitas provocada pela despromoção administrativa — consequência directa da impossibilidade de reunir, em tempo útil, todos os pressupostos financeiros exigidos — e perante a inexistência de soluções extrajudiciais que assegurassem o equilíbrio entre a viabilidade económica e os compromissos herdados, a Boavista SAD foi conduzida à única via legal que permite a sua reestruturação integral: a declaração de insolvência com vista à recuperação. Esta opção, já formalizada junto do Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia, representa uma decisão ponderada e estratégica, tomada após esgotadas todas as alternativas realistas ao dispor da Administração, a qual tudo fez, com rigor e transparência, para evitar este desfecho. Informamos ainda que o plantel principal iniciou, na presente data, a habitual bateria de exames médicos, dando assim início ao processo de preparação da época desportiva 2025/2026. Em momento oportuno, será prestada informação detalhada quanto à constituição do plantel e da equipa técnica que orientarão a nova temporada.
A Administração da Boavista SAD e o seu accionista maioritário reafirmam, em uníssono, o seu compromisso inequívoco com a recuperação plena da sociedade, independentemente da divisão onde venha a competir, e assumem a responsabilidade de liderar uma nova etapa de reestruturação, com rigor, transparência e ambição, garantindo as condições para um futuro sólido, sustentável e compatível com a história centenária do Boavista Futebol Clube.»