Lembro-me bem da noite de 31 de dezembro de 2018, a passagem para o novo ano. Entre fogos de artifício, eleitores de Bolsonaro comemoravam nas varandas de apartamentos no litoral o início “de uma nova era”, fazendo símbolo de armas com a mão, gesto que o presidente derrotado popularizou e incentivou - com armas reais.

Eu sabia que seria o início de uma nova era e temia por isso. Temia pelo retrocesso dos direitos às mulheres, pelo desrespeito com as universidades públicas, onde eu e milhares de brasileiros sem recursos financeiros tivemos a oportunidade de estudar. Temia pela ampliação do uso de armas de fogo que matam pessoas inocentes, como as vítimas de feminicídio e deixam crianças sem mãe e mães sem filhas. Temia pela vontade de retirar o já restrito acesso ao aborto de vítimas de estupro, incluindo adolescentes.

Eu temia porque vi a radicalização no Brasil. Vi amigos, conhecidos e desconhecidos se sentirem confortáveis em defender a tortura, a ditadura, a retirada de direitos das mulheres, negros, índios e da população LGBT+. Tudo por influência “do mito”, de um político “que fala o que pensa”, que é “diferente dos outros”. 

Todos os meus temores se concretizaram, além de outro que ninguém previa: a pandemia de Covid-19. Por atraso na compra de vacinas, desincentivo à imunização e medidas de prevenção, fake news e desprezo pela ciência, morreram milhares de cidadãos. Muitos de nós brasileiros perdemos pessoas queridas, que, se tivessem tido acesso a vacinas, estariam vivas para celebrar o Natal com suas famílias.

Essa era de tantos temores acaba hoje, à meia-noite. Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos em um avião na tarde do dia 30 de dezembro de 2022. Mas os ideais que movem seus apoiantes, que agem como uma seita, não foram embora dentro da aeronave. 

A partir deste domingo, ao contrário do que os eleitores de Bolsonaro dizem, o Brasil não vai se tornar comunista.

A democracia brasileira ficou com sequelas, como a normalização de pedidos de golpe militar, fanatismo religioso misturado com política, retrocesso no renomado programa de vacinação, agressões a jornalistas e até mesmo terrorismo doméstico, como visto na tentativa de explosão de uma bomba por um bolsonarista que disse querer “o caos”.

Mas, apesar de ser um enorme desafio, acredito que a democracia brasileira é forte o suficiente para superar tais sequelas. A partir deste domingo, ao contrário do que os eleitores de Bolsonaro dizem, o Brasil não vai se tornar comunista.

A maior parte do eleitorado brasileiro, desde os liberais aos partidos de centro, direita e esquerda, foram capazes de perdoar a mancha de corrupção que paira em Lula e seu partido e deixar de lado as diferenças ideológicas. Isso é de uma responsabilidade sem precedentes e é bom, pelo bem do povo, que o novo eleito lembre-se disso a cada segundo, a cada ação, a cada palavra ao povo brasileiro.

A partir de 1º de janeiro de 2023, o que se espera é um país mais democrático, mais igualitário, mais respeitado internacionalmente e com um governo competente composto por profissionais técnicos, com olhos para o futuro, não para o passado. Um Brasil menos violento, com menos ódio e sem o culto ao armamento. Acima de tudo, um Brasil com mais amor e esperança. 

Feliz Ano Novo, Brasil.